12 de março de 2013

Vende-se carros

Uma celeuma promovida por esta minha postagem aqui me deixou com vontade de voltar a escrever no blogue. Aliás já estava com vontade antes, mas faltava aquele empurrão. O empurrão veio, e despenquei a escrever.
Um dos assuntos que me têm motivado a refletir ultimamente é um tanto batido, mas continua precisando ser discutido. Trata-se da voz passiva pronominal, sobre a qual já escrevi aqui e aqui também. Mas volto ao assunto.

Uma questão recente de concurso promovido pelo Cespe afirmou, sobre a frase "Esperava-se que a metrópole deixasse de ser tão centralizadora", que a oração iniciada pela palavra "que" seria complemento de "Esperava-se". Inicialmente, o gabarito deu a afirmação como certa; após os recursos, como errada.

Tem razão o gabarito definitivo. A oração tem função de sujeito, numa estrutura de voz passiva pronominal. É o mesmo caso ilustrado no título desta postagem: quando alguém escreve "Vende-se carros", está pensando que "carros" é a coisa vendida, portanto objeto, daí não fazer a concordância entre esse termo e o verbo. Tal raciocínio decorre da associação tão frequente e tão desatenta entre sentido e análise gramatical. Professores mal preparados ensinam que sujeito é quem pratica a ação e objeto é quem a sofre. Tais explicações fundamentam-se exclusivamente em noções de sentido, deixando de lado critérios sintáticos e estruturais da língua. Ora, é evidente que o sentido de uma frase é importante, aliás o mais importante que há, uma vez que, se alguém quer vender carros, o que importa mesmo é o cliente saber disso. Mas, se fosse só para entender o sentido de frases simples, note-se que ninguém precisaria falar em sujeito, objeto, predicado ou qualquer outra classificação gramatical. (Esse raciocínio leva frequentemente à conclusão de que estudar gramática não serve para nada. De fato, se nosso objetivo fosse somente estabelecer comunicação por meio de mensagens simples, ninguém precisava estudar gramática. O que ocorre, porém, é que usamos a língua para expressar -- e talvez formar -- toda a nossa complexidade, e não somente para transmitir informações sobre compra e venda de carros. Para isso, o estudo da gramática é não só necessário, mas desejável e estimulante.)

Voltando ao ponto anterior: o funcionamento gramatical do português ou de qualquer língua tem relação íntima com o sentido do que se diz ou escreve, mas não se limita a ele. Por exemplo as concordâncias: eu não preciso dizer "Os textos antigos revelam a história etc" para ser entendido, bastaria dizer: "Os texto antigo revela a história etc". Ou seja, a concordância não é um fator determinante de sentido, e, sim, um padrão sintático, que evidentemente muda a depender da variedade linguística, principalmente no que se refere ao contexto ou grau de formalidade. Assim também vários outros mecanismos sintáticos não são indispensáveis para o sentido, mas seguem um padrão estrutural da língua, historicamente construído.

Finalmente, vende-se carros: o entendimento de "carros" como objeto me permitiria substituir o termo pelo pronome "os", como qualquer outro objeto (li um livro: li-o ou o li; comprei um carro: comprei-o ou o comprei etc). Pelo mesmo critério, a frase ficaria: Vende-se-os? Os vende-se? Vende-os-se? Se os vende? Ora, qualquer falante de português sabe que essas frases não existem, ninguém diria jamais "vende-se-os". É uma forma impossível na estrutura do português. Donde se conclui que não posso considerar "carros" como objeto. Apesar disso, parece evidente que os carros não vão vender nada. De modo que também não se trata do agente da ação. O estudo atento mostra, no entanto, que o sujeito de um verbo pode indicar o agente da ação ou o paciente dela, ou mesmo nem um nem outro, quando o verbo não expressa ação. Sujeito é uma noção sintática, cuja definição tem a ver com a conjugação do verbo na variedade padrão da língua. Quanto conjugamos um verbo (eu tenho, tu tens, ele tem etc), estamos testando exatamente o funcionamento desse verbo com os seis sujeitos possíveis. Isto quer dizer que o sujeito é, sintaticamente, a explicitação de uma dessas seis alternativas. Às vezes isso coincide com o agente da ação. Mas não na voz passiva, em que o verbo seleciona como sujeito justamento o paciente, e não o agente da ação.

Por isso se justifica a análise de "carros" como sujeito e, portanto, num funcionamento modelar da língua, é necessário usar "Vendem-se carros". A discussão aqui é sobre se a concordância é necessária num anúncio de loja. Minha opinião é que não. A frase "vende-se carros" ocorre em contextos de pouca formalidade e normalmente é direcionada a um público muito amplo e diverso. Os carros não serão piores ou melhores se o dono da loja deixar de fazer a concordância. É capaz até que eles sejam um pouco mais baratos, na medida em que o dono economizou os serviços de um revisor, e um pouco de tinta. Mas divago. Falarei disso em outra ocasião.

Entender "carros" como objeto para justificar a ausência de concordância tem duas implicações: a primeira é que permitiria uma estrutura que ninguém diz ou escreve, que é "vende-se-os"; a outra, gravíssima, é que, automaticamente, todas as placas em que se escreveu "Vendem-se carros" passam a estar erradas, porque não se faz concordância de verbo com o seu objeto, nunquinha. Isto é, milhares de placas, para não falar em milhares de frases da nossa literatura, ficam erradas. Fico proibido de fazer a concordância, se me der vontade. Machado de Assis não serve mais de exemplo porque não escreveu "vende-se carros" em lugar nenhum.

Trata-se de alternativa péssima, a meu ver. Melhor é, mantendo-se a análise de "carros" como sujeito, permitir, como concessão à regra geral (há tantas outras mesmo) a manutenção do verbo no singular, para reforçar a ideia de impessoalidade ou de indeterminação do agente. Isso faz todo o sentido, e a frase seria admissível mesmo no nível formal. Mas chamar "carros" de objeto é um erro de análise sintática, ponto final.

Da mesma forma, na frase do concurso que citei acima ("Esperava-se que a metrópole deixasse de ser tão centralizadora"), a estrutura oracional "que a metrópole deixasse..." equipara-se a "carros", do outro exemplo, e funciona, a oração toda, como sujeito de "Esperava-se", que é uma forma de voz passiva. O mesmo raciocínio vale: se eu achasse que a oração "que a metrópole deixasse..." é objeto, estaria legitimada a pronominalização dela por "o", escrevendo-se "Esperava-se-o". O que, novamente, é impossível. Por isso acertou o Cespe quando alterou a resposta do item para considerá-lo errado.

A principal diferença sintática entre frases como "vende-se carros" e "precisa-se de empregados" é que, na segunda, o elemento paciente da ação está preposicionado, o que o impede de ser considerado sujeito. Dessa forma, ainda que o termo esteja no plural, "precisa-se" estará sempre no singular. No Brasil, somente por hipercorreção ouvimos alguém dizer "precisam-se de empregados", forma que o padrão e o vulgo rejeitam. A intenção semântica é a mesma: indeterminar o agente, quem pratica a ação; mas não são as mesmas relações sintáticas. A primeira tem sujeito determinado paciente, a segunda tem sujeito indeterminado e objeto indireto.

Veja-se um exemplo com o verbo "chamar", que pode ser complementado por objeto ligado por preposição ou sem ela. Posso dizer: Chamei meu filho de João ou Chamei a meu filho de João (o de é opcional em ambos os casos para introduzir o predicativo). Numa estrutura de impessoalização, eu poderia dizer:

1) Chamou-se meu filho de João ("meu filho" = sujeito paciente --> voz passiva);
2) Chamou-se a meu filho de João ("a meu filho" = objeto indireto --> voz ativa com sujeito indeterminado).

A preposição faz toda a diferença: na frase 1, "meu filho" é sujeito paciente, como "carros" lá em cima. Na frase 2 não posso repetir a análise: o sujeito não pode ser preposicionado, por isso tenho que considerar "a meu filho" como objeto. Ora, neste caso, a pronominalização ajuda a validar a reflexão que vimos seguindo. A frase 1 não pode ser reescrita como "Chamou-se-o de João"; mas a frase 2 pode ficar "Chamou-se-lhe de João".

Conclusão: se o termo não pode virar pronome oblíquo, não é objeto; se pode, não é sujeito.
Isso tem implicações na concordância, também. As frases 1 e 2 ficariam, caso se tratasse de vários filhos:
3) Chamaram-se nossos filhos de João e Maria.
4) Chamou-se a nossos filhos de João e Maria.

No caso da frase 3, pelo mesmo motivo por que acho lícito validar a concordância "Vende-se carros", acho justo que se admita "Chamou-se nossos filhos de João e Maria" na norma-padrão. Mas disso muito teórico ainda diverge.

A conclusão da postagem, a qual acabou saindo mais longa que o esperado, é a seguinte: não se pode fazer a mesma análise para as frases "Vende(m)-se carros" e, por exemplo, "Precisa-se de empregados", em decorrência de regras gramaticais que vão bem além do sentido. E estou falando "regras" no seu sentido de recorrências, e não de prescrições. Não é por insistência de professores que os alunos deixam de dizer "vende-se-os": não se diz isso porque a gramática interna da língua, aquela que todo falante fluente conhece ainda que meio inconscientemente, não abrange tal fórmula. Assim também quase não se diz, mesmo em nível menos formal, "precisam-se de empregados".
Por isso é forçoso reconhecer a existência da voz passiva sintética (ou pronominal) no português do Brasil, em oposição ao sujeito indeterminado pela palavra se, embora a concordância dessa forma passiva seja variável e, a meu ver, se devesse aceitar como regular uma estrutura do tipo "vende-se carros".

14 de dezembro de 2010

Uma vírgula!

O uso da vírgula causa discussões e dúvidas infinitas. Há muita margem para liberdade no uso desse sinal, mas há também critérios bem-definidos que precisam ser entendidos.
E a primeira coisa a entender é que a vírgula não é para marcar respiração. Nem corresponde necessariamente a uma pausa na fala. O que quer dizer que uma frase bem comprida pode não ter vírgula nenhuma, e nem por isso vamos perder o fôlego no meio dela.
Outra ideia errada é que a vírgula serve para desfazer ambiguidades. Não, não desfaz. Se a frase é ambígua por defeito de construção, vai continuar ambígua se você sair enfiando vírgulas onde bem entender. Aquelas brincadeiras de ficar mudando vírgula de lugar para mudar o sentido são um passatempo, não correspondem a dúvidas de pontuação no mundo real.
A vírgula, na verdade, é um marcador sintático, marca um intervalo sintático, é típica da escrita, portanto nem sempre encontra correspondência na fala. Os critérios para uso da vírgula dependem da estrutura da frase, e os principais deles são os seguintes:

1) Deslocamento de adjunto adverbial: usa-se a vírgula para marcar a mudança de posição do adjunto adverbial (aqueles termos que normalmente atribuem circunstâncias ou qualificações ao verbo, ou a toda a oração). A posição normal deles é o fim da frase, então, quando se antecipam, marcam-se com vírgula. O uso da pontuação é dispensável quando o adjunto adverbial já estiver claramente marcado e seu deslocamento não implicar dúvidas ao leitor sobre a estrutura da frase. Por exemplo, posso não pontuar quando o adjunto deslocado for curto, ou claramente adverbial (como os advérbios terminados em –mente). Se o adjunto adverbial deslocado for uma oração (oração subordinada adverbial, ou seja, tem verbo no meio), a vírgula ocorre sempre; aliás, com oração adverbial, é frequente a vírgula ocorrer mesmo sem inversão.
Observe-se que estamos falando de termos adverbiais, ou seja: não se usa vírgula para marcar inversão dos termos principais da oração, como sujeito, objeto direto e objeto indireto.

2) Intercalação de termo acessório (exceto se restritivo): usa-se vírgula para marcar o acréscimo de um termo acessório, em qualquer posição na frase, como apostos, vocativos, orações adjetivas, orações intercaladas, modificadores adverbiais relacionados genericamente a toda a oração (como Infelizmente, Segundo o ministro, Na minha opinião), expressões retificadoras (isto é, ou seja, a saber  etc) e predicativos de caráter acessório (como em O rapaz, desanimado, entrou em casa). Há uma exceção importantíssima a esta regra: os termos acessórios de caráter restritivo, especificador, não têm vírgula. Se, por exemplo, na última frase que eu citei, a palavra “desanimado” servisse para especificar de que rapaz estou falando, não haveria vírgula: O rapaz desanimado entrou em casa, isto é, o termo intercalado faz distinção entre este e outros possíveis rapazes de quem eu pudesse falar. Os termos restritivos (aposto restritivo, oração adjetiva restritiva, a maior parte dos adjuntos adnominais e complementos nominais) não têm vírgula.

3) Coordenação: a vírgula é usada em todas as coordenações (enumerações de termos ou orações) que não sejam marcadas por conjunção. Quando há conjunção, o uso varia bastante. Quando a coordenação é marcada pela conjunção e, por exemplo, normalmente não se usa vírgula (entre orações coordenadas é mais frequente que entre termos simples); com o ou, usa-se opcionalmente; com o mas, usa-se quase sempre (menos frequentemente quando ocorre entre termos simples). Com outros termos que parecem conjunção mas não são, como portanto, todavia, contudo, logo, então, marca-se sempre a coordenação com vírgula. Vale lembrar que a vírgula, quando aparece junto com a conjunção, vem sempre antes dela.

Nos casos 1 e 2, a vírgula faz um isolamento, ou seja, usa-se uma vírgula antes, outra depois do termo que se quer separar (a menos que ele venha no início ou no fim da frase, é claro). No caso 3, uma vírgula, só, marca a coordenação. (Estas minhas últimas vírgulas, por exemplo, são sintaticamente opcionais, mas, se eu as tirar, o leitor pode entender o “só” como uma restrição ao verbo “marca”, como se eu dissesse que a única coisa que a vírgula faz é marcar coordenação. Mas, como o que eu quero dizer é que a vírgula sozinha basta, pus o “só” entre vírgulas. Opcional, mas sem sair dos critérios.)

Vamos a alguns exemplos e suas respectivas justificativas:
a) Antes de acabar o jogo, o juiz abandonou o gramado. (regra 1: oração adverbial deslocada)

b) Compraremos, ainda hoje, os presentes de Natal. (Regra 1: adjunto adverbial deslocado; como é curto e composto por advérbios, posso tirar as vírgulas; observe-se que ou eu uso as duas, ou nenhuma; uma só, ficaria errado.)

c) O acidente, que envolveu um carro e uma moto, deixou três pessoas feridas. [Regra 2: oração adjetiva (acessória, portanto), de valor explicativo.]

d) Aquele, sim, era o homem da vida de Maria. (Regra 2: adjunto adverbial acrescentado livremente, sem vinculação com nenhum termo específico; nestes casos, ainda que curto, normalmente se usa a vírgula.)

e) Meu filho João passou de ano. (Regra 2: se não há vírgulas isolando “João”, é porque é uma restrição, ou seja, eu tenho mais de um filho e estou falando de apenas um deles; note-se o risco de comprometer o sentido se eu errar a pontuação nesta frase, como em, por mau exemplo: Eu e minha esposa Maria fomos ao parque.)

f) O menino gostava de estudar História, Geografia e Biologia. (Regra 3: os três termos estão coordenados, mas o “e” substitui a vírgula no último caso.)

g) Não tínhamos conseguido falar com o diretor, mas, quando ele saiu do prédio, os funcionários, irritados, o cercaram, e a confusão começou. (Esta é uma típica frase que causa confusão quanto ao uso da vírgula. Há várias, e precisamos analisar cada caso separadamente: a primeira marca coordenação de orações — regra 3; a segunda, casada com a terceira, marca o deslocamento de uma oração adverbial — regra 1; as duas seguintes isolam o “irritados” pela regra 2; e a última marca a coordenação de orações — como já há a conjunção “e”, a vírgula é opcional, mas bastante frequente por se tratar de orações com sujeitos diferentes.)

Há vários outros usos, convém ver uma boa gramática (recomendo para isso a do Bechara). Um deles, muito interessante, é o uso da vírgula para marcar a omissão do verbo, como em O primeiro projeto foi vetado e o segundo, aprovado.
Outras dúvidas são comuns. O uso da vírgula é muito afetado pelo estilo, pelo ritmo que se quer imprimir ao texto, pelo gosto do autor etc. Mas os critérios explanados acima devem ser seguidos, em todo texto formal, por obediência a um padrão que garante clareza, fluidez e elegância ao que se escreve.

Qualquer dia desses eu escrevo sobre outros sinais de pontuação, como o ponto e vírgula, os travessões e os parêntesis. Até lá!

19 de abril de 2010

Autor publicado!

Uma versão um pouco resumida deste meu texto aqui sobre os "porquês" saiu publicada no caderno Eu, concurseiro, do Correio Braziliense de hoje. O que não faz de mim, exatamente, um autor publicado, mas já é alguma coisa, né?

Tem versão online aqui. Não tem mais. Agora, só pra assinante.

31 de março de 2010

Pergunte-me como

Ok, o que não falta na internet é site pra tirar dúvida de português. Por incrível que pareça, alguns são até bons, como o Ciberdúvidas. Mesmo assim, aqui vai minha contribuição. Pergunte o que quiser.

30 de março de 2010

Crase

Eu sei, seu sei. Mais de um ano sem postar nada é quase um recorde mundial. Mas para de reclamar e aprende aí: crase é o nome que se dá à fusão da preposição "a" com um outro "a", que pode ser duas coisas: 1) artigo definido feminino; 2) pronome demonstrativo feminino. O primeiro caso todo mundo conhece. O segundo é um pouco mais difícil de... Não, não é difícil, o pessoal é que não explica direito. É assim: numa frase como "Esta frase ficou mais bonita que a anterior", o "a" destacado, que parece um artigo sozinho, é o pronome demonstrativo. As análises dos gramáticos divergem, mas eu prefiro entender que, neste caso, não se trata da omissão do substantivo "frase", ficando o artigo ali, sozinho, sem pai nem mãe; e, sim, da substituição da palavra "frase" pelo pronome "a". Então, se coincidir uma preposição e esse pronome, faz crase. Por exemplo:
1) A história do Brasil está intimamente ligada à das grandes navegações europeias.
O adjetivo "ligada" pede preposição, a história está ligada a alguma coisa. Mas preposição sozinha não faz crase, esse aliás é um erro comum de quem não sabe usar o acento grave. Vê uma preposição, e já taca uma crase. Então repito: preposição sozinha não faz crase. Mas é necessária para que ela ocorra. Então, voltemos ao exemplo: existe preposição, e ela se une com o pronome demonstrativo "a" que substitui a palavra "história". Crase.
Este caso da crase com pronome demonstrativo pode acontecer antes de quase todo tipo de palavra, diferentemente da crase com artigo, que só acontece antes de substantivo feminino. Olha só:
2) Nossa história está ligada à que nossos avós contam. (pronome)
3) Nossa história está ligada à de vocês. (preposição)
4) Nossa história está ligada à portuguesa. (adjetivo)
5) Nossa história está ligada à contada nos livros. (verbo)
6) Nossa história está ligada à sua. (pronome possessivo)
Quanto a esse último exemplo, vale destacar que a crase é obrigatória mesmo antes do pronome possessivo, caso em que muita gramática ensina que é opcional. Porque o que é opcional antes do pronome possessivo é o artigo, e não a crase. Portanto, se for crase de preposição com pronome, ela é obrigatória.

Então não existe "à" se não for um desses dois casos. Muita gente sai craseando qualquer "a" que vê na frente. É só raciocinar um pouquinho, nem dá tanto trabalho assim. Tem um truque: se a crase é a fusão da preposição com a palavra feminina "a" (seja artigo seja pronome), então como fica se a palavra for masculina? Fica "ao", sempre, tanto no caso do artigo quanto no caso do pronome.
Assim: se a palavra "história", dos nossos exemplos, for trocada por uma masculina (não precisa manter o sentido), o "à" vira "ao". Se não virar, é porque não tinha crase.
7) Nosso passado está ligado ao das grandes navegações.
8) Nosso passado está ligado ao seu. (Veja que o "ao" é obrigatório, assim como a crase seria se a palavra fosse feminina.)
Voltando agora ao primeiro caso, o da preposição com artigo definido feminino, o melhor jeito de não errar é lembrar sempre que ela só ocorre se houver artigo. As dúvidas de crase têm mais a ver com o artigo do que com a preposição. Preposição quase todo mundo sabe quando é que tem, quando é que não tem. Artigo é que gera dúvida. Por exemplo, outro dia um arquiteto (aliás meu pai) ficou em dúvida com a seguinte frase:
9) Os afastamentos obrigatórios são áreas destinadas a passagem eventual de encanamento ou fiação de interesse público blablablá.
Tem crase ou não tem? Bom, que tem preposição, isso não é dúvida. Alguma coisa é destinada a. Mas tem artigo antes de "passagem"? Aqui, especificamente, tanto faz. Depende do sentido que se quer enfatizar: se se quer dar um sentido mais genérico à palavra "passagem" (qualquer passagem, em qualquer tempo, etc), é melhor sem artigo, e portanto sem crase; se a ênfase é para uma passagem já mais ou menos prevista, esperada, pode ter artigo, e daí crase. Tanto faz, no fim das contas.
Noutros casos, o artigo é obrigatório, porque é preciso definir o substantivo:
10) A tubulação destinada à fiação antiga do prédio será substituída etc.
Trata-se de uma fiação específica, o artigo é obrigatório, a crase também.
O mesmo vale para indicação de hora ou dia:
11) O evento vai de 10h a 11h.
12) O evento vai das 10h às 11h. 
No exemplo 11, não há artigo no primeiro termo, não deve haver no segundo, por paralelismo. É só a preposição. No outro, há artigo nos dois. Crase, portanto.

O pessoal se atrapalha também com o "há". Aqui é fácil: para indicação de tempo passado, "há", sempre. Para outras indicações (distância, hora, tempo futuro), preposição "a", com ou sem crase dependendo de haver ou não artigo ou pronome demonstrativo depois, vê aí.
13) Eles saíram há pouco tempo, há dois dias, há uma semana. Eles estão aqui há três dias.
14) Vamos sair daqui a pouco, daqui a duas semanas, às três horas. Estamos a três quilômetros do centro, estamos a cinco minutos da estação.
Decora, vai. E não existe, no português, em caso nenhum, "á".
Tem um posto de gasolina aqui perto de casa com uma placa assim:
Horário de funcionamento:
Segunda à sexta: 8h as 22h.
Sábados: 9h às 23h.
Domingos e feriados: 12h ás 19h.
Quer dizer, o cara apostou que uma delas ia estar certa, ou que qualquer coisa dava no mesmo. Corrige aí nos comentários, vai.

Outra dúvida com a crase é antes dos topônimos, os nomes dos lugares. Vou à Veneza ou vou a Veneza? Tudo depende, de novo, do artigo. Preposição eu sei que tem, quem vai vai a etc. Mas e o artigo? Sugiro testar com o verbo "visitar".
15) Visitei Veneza (sem artigo). Portanto, vou a Veneza.
16) Visitei a Itália (com artigo). Vou à Itália.
Funciona sempre. É fácil. Larga de ser preguiçoso e para de errar crase, que ninguém aguenta mais. Outro dia vi um anúncio de "pizzas àpartir de 9,90". Se a pizza for no mesmo capricho com que o cara usa a crase, melhor pagar mais caro noutro lugar.

21 de janeiro de 2009

Desacordo ortográfico

A ideia (gostou, assim, sem acento? Vai acostumando, então) de unificar a grafia do português nos diversos países lusófonos é boa. Fortalece o mercado editorial, o que me faz ingenuamente esperar que o preço dos livros possa assim diminuir um pouco. Unifica o ensino de português em outros países, consolidando a importância do Brasil como o maior país lusófono. Etc. Mas um problema razoavelmente sério, que consiste na enorme diferença entre a norma-padrão portuguesa e o uso (mesmo culto) brasileiro não é resolvido pelo Acordo Ortográfico, nem poderia ser. Não é a sua intenção.

O melhor (ou pior) exemplo dessa diferença e dos problemas que ela implica para quem precisa usar adequadamente a variedade padrão da língua, no Brasil, é a colocação pronominal. Meus alunos, para ficar só num caso, torcem o nariz e duvidam de mim quando eu digo que a língua falada no Brasil prefere a próclise (isto é, o pronome átono antes do verbo, como em "me deitei"), sempre, mesmo no nível formal. Eles estranham porque leram em gramáticas e ouviram dos professores, a vida toda, que o certo é sempre sempre sempre a ênclise (como em "deitei-me"), e acreditam piamente nisso, mesmo nunca tendo usado na vida uma ênclise sequer, exceto na escola e em provas de concurso. Isso é um problema, que é difícil de resolver. Se eu pudesse, nem falava de regra de colocação pronominal em sala. Mas não posso, aí eu falo, e os alunos me olham feio se eu ensino o que a gramática diz e se eu me recuso a ensinar o que a gramática diz. Vida de professor não é fácil...

Mas não era para isso que eu ia escrever hoje. Mas tem a ver. O português do Brasil e o de Portugal são tão diferentes, que nem o Acordo Ortográfico conseguiu resolver o problema do porquê. Já expliquei aqui como funciona o porquê no Brasil. Agora vou explicar como é em Portugal e, vejam só, é bem diferente. E vai continuar diferente. Mesmo com a unificação da ortografia.
Prepare-se: em Portugal, o porque é sempre junto. Mesmo na pergunta. Entendeu? Então tá, pode ir. Não, espera! Tem um que é separado: é quando o que é pronome relativo. É um caso fácil: pronome relativo é um que que vem sempre referido a um substantivo anterior. Assim:
"Não entendi o motivo por que você foi embora."
Está vendo que o "que" se refere a "motivo"? Não? Substitua, então, na segunda oração. Fica assim: "você foi embora por esse motivo". Tem outros exemplos disso na postagem sobre o porquê no Brasil. Neste caso, o uso nos dois países é idêntico.

O resto é junto, sempre. Eles consideram o porque um advérbio interrogativo, quando usado em frases interrogativas diretas e indiretas, e uma conjunção, quando expressa causa, finalidade ou coordenação explicativa. Olha os exemplos:
1) Porque você não veio?
2) Nunca me disseram porque você não veio.
Os casos 1 e 2 são exemplos de advérbio interrogativo. São diferentes do uso no Brasil. Para o uso do porque como conjunção, fica o mesmo que nós usamos. Tem ainda um caso especial em Portugal: se o porque vier no fim da pergunta, ou se a frase não tiver verbo conjugado, escreve-se porquê, com acento. Assim:
3) Você ainda não chegou porquê?
4) Porquê esperar tanto?
5) Porquê tanta dor no mundo?
Parece mais fácil que no Brasil, certo? Mas olha que coisa: consultados alguns sites de dúvidas de português, percebi que os professores em Portugal parecem ter tanta dificuldade quanto nós, brasileiros, em ensinar o uso dos porquês para seus alunos. Quer dizer, comprova-se o que eu já tenho como convicção há um tempo: simplificar a língua não facilita o aprendizado. O que se exige do professor é que ele domine bem o que está ensinando; e do aluno, que estude o que vê em sala, senão não adianta nada.

Lá na postagem sobre o porquê brasileiro eu deixei uns exercícios para os visitantes do blogue responderem, mas ninguém se atreveu, ao menos não publicamente. Dou, então, as respostas, primeiro conforme a regra brasileira, depois conforme a regra portuguesa. Mas fica a questão: se no uso dos porquês a regra pode ser diferente, e continuará sendo mesmo com a unificação ortográfica, por que (separado) não estender a lógica para outros casos, como a colocação pronominal ou algumas regras de regência verbal? Eu quero começar frases com pronome oblíquo átono! Próclise livre já!

Vamos às respostas dos exercícios:

I - Só gostaria de saber _________ a secretária não me avisou antes sobre o problema. (por que, no Brasil; porque, em Portugal)

II - Foi ruim revê-la, _________ as lembranças ainda doíam no coração. (porque, em ambos)

III - Os direitos __________ lutam os grevistas são legítimos. (por que, sempre)

IV - Ela foi embora, assim, sem mais, e nem me explicou ________. (por quê e porquê)

V - _______ o governo investe pouco em educação, os índices de analfabetismo ainda são muito altos. (porque, nos dois)

Alguma dúvida? Deixa aí nos comentários.

Até!

19 de novembro de 2008

Atualização ortográfica

Conforme explicado aqui, começo a atualizar também este blogue às novas regras ortográficas estabelecidas pelo Acordo de 1990, que entra em vigor ano que vem.
Já fiz toda a atualização do Palavras à pena, e me surpreendeu constatar que são raríssimas as palavras que mudam. Sério. Ou eu devo estar usando sempre as outras. Nesta postagem aqui, por exemplo, ainda não apareceu nenhuma palavra que precise de alteração. E ainda não arrumei tempo para falar do porquê português.
Quem sabe até o fim do mês?

11 de novembro de 2008

Por quê?

Em ritmo de reforma ortográfica, andei pesquisando nestes dias sobre a diferença entre o uso dos "porquês", no Brasil e em Portugal, e fiquei surpreso ao saber que o Acordo Ortográfico que passará a viger em 2009 nem trisca no assunto. Curioso, consultei nossa digníssima Academia Brasileira de Letras e a resposta confirmou: vamos continuar usando os "porquês" diferentemente dos portugueses. Apesar de eu não ter entendido por que não houve acordo quanto a esse item, vale então explicar aos nossos pacientes leitores, que esperam meses por uma mísera postagem deste relapso autor, quando afinal se usa "porque" ou "por que", aqui e em Portugal.
Para começar, no Brasil: a palavra "porque" é uma conjunção. Sempre. O que uma conjunção faz da vida? Ela liga duas orações (ou termos simples, mas não é o caso do "porque"). Então o "porque" assim, juntinho, só aparece ligando duas orações, ainda que a primeira esteja subentendida, como acontece frequentemente em respostas diretas a uma pergunta. Essa conjunção pode ter os seguintes papéis: 1) introduz uma causa para a oração anterior, sendo portanto uma conjunção subordinativa (causal); 2) introduz uma prova, uma pista, uma explicação para a afirmação que foi feita anteriormente, e não uma causa, e assim vai se classificar como conjunção coordenativa (explicativa); 3) introduz, raramente no português moderno, uma finalidade para a oração anterior, como uma conjunção subordinativa final (a fim de que, para que etc). Vamos aos exemplos, na mesma ordem:
1) Não fui à aula hoje, porque estava doente.
(Para quem gosta de classificações: o "porque" introduz uma oração subordinada adverbial causal.)
2) Deve estar chovendo fortemente, porque o barulho da água nas telhas é ensurdecedor.
(O conector introduz oração coordenada explicativa: note-se que a segunda oração não é de modo algum a causa da primeira, e sim uma pista, uma prova, uma explicação.)
3) O piloto se esforçou porque obtivesse o título.
(A conjunção introduz oração subordinada adverbial final: note-se que o sentido é o mesmo de "a fim de que", "para que"; neste caso, normalmente o verbo da segunda oração aparece no modo subjuntivo, ao contrário do que acontece, grosso modo, quando o "porque" tem sentido causal.)

Este é o famoso "porque" junto. Já o "por que", separado, é outra coisa, totalmente diferente: trata-se da reunião da preposição "por" com a palavra "que". O "que", neste caso, pode ser: 1) pronome relativo, referindo-se a uma palavra da oração anterior; 2) pronome indefinido ou interrogativo; 3) pronome relativo sem antecedente, funcionando como uma conjunção integrante. Este último caso é o mais difícil de classificar, mas é fácil de entender. Vamos aos exemplos:

1) por + que (pronome relativo):
A ABL explicou-me o motivo por que não haverá mudança no uso da expressão.
Neste caso, o "que" refere-se diretamente à palavra "motivo", e a preposição "por" é responsável pelo sentido causal que a oração tem. Outro exemplo:
Estas são as fotos das cidades por que passamos durante nossas férias.
Aqui, o "que" se refere a "cidades" e a preposição "por" é regida pelo verbo "passar".

2) por + que (pronome indefinido ou interrogativo):
Por que o Acordo não trata dessa questão?
Este é caso clássico de "por que" separado. É a frase interrogativa direta, é a pergunta com ponto de interrogação no final. Perceba-se que não pode se tratar da conjunção "porque", visto que não há ligação com oração anterior. Nesta frase, o "que" é um pronome substantivo, ou seja, ele substitui um substantivo. Essa mesma frase poderia ser formulada com um pronome adjetivo, ou seja, um "que" que acompanha um substantivo, como em: "Por que razão o Acordo não trata disso?"

3) por + que (pronome relativo em função de conjunção integrante):
Não entendi por que o Acordo não trata dessa questão.
Trata-se da frase interrogativa indireta, ou seja, a pergunta feita numa frase aparentemente afirmativa, sem ponto de interrogação. Sintaticamente, perceba-se que a oração introduzida pela expressão "por que" funciona como objeto direto da primeira (Não entendi essa omissão. Não entendi por que houve omissão). Dessa forma, a expressão "por que" funciona como uma conjunção integrante, aquela que introduz normalmente as orações de caráter substantivo, como é o caso. Aqui, vale ressaltar a enorme diferença de sentido que poderia fazer usar o "porque" junto em lugar do "por que" separado. Comparem-se os seguintes exemplos:
a) Ninguém entendeu bem, porque o professor estava impaciente.
b) Ninguém entendeu bem por que o professor estava impaciente.
Na frase "a", o "porque" introduz a causa da oração anterior. Ninguém entendeu a explicação, o assunto, seja lá o que for, em decorrência da impaciência do professor. É conjunção adverbial, juntinha portanto. Na frase "b", o que os alunos não entenderam é justamente por que o professor estava impaciente, ou seja, não entenderam o motivo de o professor estar tão impaciente. A expressão "por que" introduz o objeto direto do verbo entendeu. Ela não introduz a causa da oração anterior. Separada, então.

O "por quê", separado e com acento, é o mesmíssimo "por que" separado dos casos 2 e 3, mas ganha acento quando a frase está invertida e o "que" é seguido de ponto final, de exclamação ou de interrogação. O professor estava impaciente, e ninguém entendeu por quê. Você não vai à festa por quê? Este time só erra gol, alguém me explique por quê!

O "porquê", junto e com acento, é o mais fácil de todos. Trata-se de um substantivo, como outro qualquer, sempre antecedido de artigo. "Não entendi o porquê de o Acordo não falar disso" (o motivo de, a razão de).

Não é difícil. Mas tem que fazer um pouco de análise sintática. Desaconselho os macetes e substituições que algumas gramáticas ensinam. Podem funcionar, mas prefiro sempre entender a estrutura a decorar um macete. Porque o macete você esquece; a estrutura, não.

Vamos exercitar um pouco? Você pode responder nos comentários, e daqui a uma semana eu dou o gabarito. (Ai, que horror, estou parecendo a Dad...) Diga como aparece o "porque" nos espaços abaixo:

I - Só gostaria de saber _________ a secretária não me avisou antes sobre o problema.

II - Foi ruim revê-la, _________ as lembranças ainda doíam no coração. (Ai, que frase brega!)

III - Os direitos __________ lutam os grevistas são legítimos.

IV - Ela foi embora, assim, sem mais, e nem me explicou ________.

V - _______ o governo investe pouco em educação, os índices de analfabetismo ainda são muito altos.

Na próxima postagem (quando será, hein?) eu explico como funciona isso em Portugal.

11 de março de 2008

Objetos

Não vou dar nenhuma desculpa esfarrapada. Deixei o blogue às moscas pelos últimos vinte meses por pura preguiça mesmo de o atualizar. Mas sempre é tempo de se redimir. Tínhamos ficado de analisar uma outra importante diferença entre o português do Brasil e o de Portugal, que é o uso dos complementos verbais, ou objetos.
É assim: no Brasil, diz-se com toda a tranquilidade uma frase como "Meu carro quebrou, mas ainda não levei para a revisão". Veja-se que tanto quebrar como levar são verbos transitivos, ou seja, ocorrem com complemento verbal. No entanto, na nossa frase os verbos não estão acompanhados de complemento, e mesmo assim ninguém fica se perguntando: "Quebrou o quê? Levou o quê?" Em Portugal, se diria: "Meu carro quebrou-se, mas ainda não o levei para a revisão". (Tá bom, tá bom, eu sei que em Portugal não se fala carro, e sim auto; agora deixa eu continuar a explicação.) Quer dizer: lá é menos comum, mesmo na língua falada, o apagamento do objeto. Aqui, porém, o mais natural é uma frase dessas ocorrer sem a repetição do objeto. Seria estranha, para nós, uma frase assim: "Comprei um livro, nem o li ainda e já o emprestei." Mais frequente seria a elipse pura e simples do objeto nos dois últimos verbos. Já os portugueses estranham esse apagamento, e usam o pronome oblíquo para marcar a anáfora.
Inversamente, em Portugal é comum o apagamento do sujeito. Sobretudo quando pronominal, é regra não explicitar o termo que conjuga o verbo, isto é, o sujeito: "José Saramago é um dos mais importantes escritores de língua portuguesa. Tem diversos romances e também escreve contos." Veja-se que o sujeito dos dois últimos verbos não foi explicitado. No Brasil, sobretudo no nível da fala, seria naturalíssimo dizer Ele tem diversos romances e ele também escreve contos. Na primeira pessoa, por exemplo, um brasileiro diz eu fui, depois eu voltei, daí eu encontrei não sei quem e por aí vai; enquanto um português acharia melhor apagar todos os eus dessa frase.
Ou seja: no Brasil é natural apagar o objeto, mas não o sujeito, quando subentendidos; em Portugal, o normal é apagar o sujeito, quando subentendido, mas não o objeto. Isso não é uma regra, e varia bastante dependendo do uso, do estilo e sobretudo do grau de formalidade. Mas é uma diferença estrutural importante entre as duas línguas, e deve ser destacada quando se fala disso em sala de aula.
Essas diferenças (há outras também) servem para orientar os professores, linguistas e gramáticos brasileiros a prosseguir nos estudos que embasem o estabelecimento de uma norma-padrão brasileira, independente e diferenciada da norma-padrão portuguesa. Isso não é nenhuma forma de ingratidão à nossa língua-mãe ou blablablá. É o passo decisivo para tornar o ensino de português mais coerente com a nossa realidade, com o nosso jeito, com os nossos usos e com a nossa inteligência, que funciona de modo diferente da inteligência (aliás finíssima) dos portugueses.

30 de agosto de 2007

Zero e falta para o preconceito

Outro dia um aluno meu, após ter me visto provar que estão certas algumas construções sintáticas um tanto estranhas, embora possíveis, desabafou: “Nunca mais corrijo ninguém!” Tem razão meu aluno. Corrigir é tarefa de professor e deve limitar-se à sala de aula. Há inúmeras bobagens ditas por aí em nome do “bom português”. E inúmeros preconceitos contra aqueles que, da ótica de uma classe dominante opressora, não sabem falar direito. Neste ponto, a ignorância e o preconceito de classe se misturam e se confundem. Há os que conhecem a norma-padrão da língua e usam isso como instrumento de poder e de discriminação contra pessoas que, por diversos motivos, falam ou escrevem fora da norma de prestígio. Outros há que, por desconhecer as nuances da língua, julgam erradas frases que a norma-padrão aceitaria com tranquilidade. Mas a maioria das pessoas (com algum estudo) sintetizam o que há de ruim nos dois grupos anteriores: discriminam e corrigem os outros, mesmo sem conhecer bem a norma oficial do português.
Por exemplo, no que eu acabei de dizer: a maioria das pessoas discriminam é uma frase que um monte de gente julga estar errada e corrige: “a maioria discrimina”, apontam os incautos, sem se dar o trabalho de ir consultar uma gramática. Outra frase que, por conter uma inversão, pode parecer errada é, por exemplo, “É difícil para mim falar sobre isso”. Mim não está conjugando o verbo. (Aliás, ressalte-se, quando se corrige uma frase como “isso é para mim fazer” sob o argumento de que mim não conjuga verbo, demonstra-se desconhecimento — grave — de que o verbo fazer é infinitivo e, portanto, não conjugado. Mesmo o eu, que a norma-padrão exige neste caso, não conjuga infinitivo.) Voltando ao caso, então, o que há aqui é apenas uma inversão que, por ser curta, pode não se separar por vírgula. Mudando a colocação, poderia ficar “Para mim, sobre isso é difícil falar”, “Para mim, falar sobre isso é difícil” ou “Falar sobre isso é, para mim, difícil”. Etc.
Tem uma comunidade no orkut chamada “Eu procuro erros de português”. Eles corrigem, rindo, frases do tipo “Fui ver os meninos brincar” para Fui ver os meninos brincarem. Ora, não se lembram de Cartola (ou Marisa Monte) cantando “Ver as águas dos rios correr, ouvir os pássaros cantar”. Cartola sabia o que estava fazendo. E sabia que tinha a opção de não flexionar o infinitivo neste caso. Assim como tinha a de flexionar. O pessoal da comunidade no orkut não sabe disso. Não estudou a lição numa boa gramática. Mas, mesmo assim, fica apontando erro na fala dos outros.
Na verdade, ser corrigido em público é sempre constrangedor. Interromper uma conversa para fazer alguma correção de linguagem na fala do outro é, no mínimo, uma indelicadeza. A língua serve antes de tudo para comunicar, e errado mesmo é não saber entrar em contato com o outro. E isso inclui ouvir, respeitar e compreender o seu interlocutor, bem como se fazer entender por ele. Na mesma língua.
Voltando à sala de aula, meu aluno talvez não tenha percebido a importância da decisão que estava tomando. Deixar de corrigir os outros é sinal de polidez e de humildade. Não só porque quem corrige pode estar errado, mas porque a conversa fica muito mais agradável e produtiva. Corrigir é tarefa (ingrata) para professor. Da qual ele não deve se isentar. Em sala de aula deve-se corrigir o que o aluno escreve em provas. Deve-se comentar fatos que surjam na fala de alguém. Deve-se apresentar problemas comuns em textos do dia a dia. Deve-se discutir casos complexos, como a estrutura da presente frase (que eu já discuti aqui). Deve-se mostrar usos literários, raros na linguagem falada. Porque o aluno está lá para isso mesmo. Para ampliar seu repertório sintático e lexical. Para ampliar os limites do seu pensamento e da sua capacidade de interpretação. Mas não para ser humilhado pelo professor, nem para aprender a humilhar os outros.
Corrigir é fundamental. Ensinar é fundamental. Esse é o papel da escola, do professor e da educação.

* Só para constar: o corretor gramatical do Word me mandou corrigir várias das frases deste post. Tsc, tsc.

21 de agosto de 2007

Não fi-lo porque não quilo.

Bom, demorei quase cinco meses para cumprir minha promessa de falar sobre as diferenças entre o português do Brasil e o de Portugal. A justificativa está aí no título. Cujos erros, aliás vários, já servem para começar a falar das alegadas distinções. Talvez a mais óbvia delas seja justamente a das regras de colocação pronominal. Mas para que servem mesmo essas regras?

Colocação pronominal tem a ver com questões fonológicas ou de pronúncia. Sotaque, enfim. Todo o mundo já notou que os portugueses engolem as sílabas átonas da frase, certo? Portanto é uma língua que se organiza toda em função das sílabas fortes, provocando o deslocamento dos pronomes átonos para depois delas. Se um português iniciasse, por exemplo, uma frase com um pronome átono, o som seria tão apagado que poucos o perceberiam. "Me dá um cigarro", para citar Oswald de Andrade, sairia um mero "dá um cigarro", talvez com uma certa nasalização antes do "d". "O vi ontem" ficaria "vi ontem", e faltaria o objeto do verbo ver, e a coisa mais grave do mundo para um português é faltar um objeto (ponto que analisaremos em outra oportunidade). Por isso a regra básica de colocação pronominal em Portugal é usar a ênclise, ou seja, colocar o pronome após o verbo. "Dá-me um cigarro", "Vi-o ontem" etc. Lá só se usa próclise (pronome antes do verbo) se houver fatores sintáticos que, na cadeia frasal, estabeleçam um espaço sonoro para o pronome. É o que ocorre em subordinações, por exemplo, dado que as conjunções que as introduzem também são átonas. Aproximam-se duas expressões átonas e pronto: conseguiremos ouvir mais ou menos as duas, antes que outra explosiva sílaba tônica espalhe perdigotos nos nossos óculos.

No Brasil não tem nada disso. Os sons das sílabas ocorrem com mais uniformidade, e após as sílabas tônicas é que ocorre uma queda sonora que apaga frequentemente os sons finais átonos das palavras. Por isso, entre outros fatores, a próclise é mais natural entre nós e, quando se usa a ênclise, é comum substituir-se o pronome átono pelo tônico, como em "Vi ele ontem".*

Aliás, não só a colocação como também o uso mesmo dos pronomes funciona diferentemente. Se eu virar para minha mulher e disser: "Amo-a", ela certamente perguntará, com as unhas cravadas na minha jugular, "Quem?!". Menos grave para minha integridade física, mas ainda um tanto constrangedor, seria dizer "Amo-te", como lá na terra de Saramago se diz. Mas o bom negro e o bom branco da nação brasileira dizem todos os dias: ah, vai, eu te amo.

Isso não ocorre somente na língua falada. Os textos brasileiros escritos cada vez mais adotam como naturais estruturas como "Me deparei com uma questão" ou, como li outro dia num livro do Roberto Schwarz**, "Nos preocupamos em mostrar ao leitor...". Isso não quer dizer que os autores ignorem a prescrição da norma-padrão. Apenas não a consideram relevante. Como, de fato, não o é.

Por outro lado, ocorre frequentemente o fenômeno da hipercorreção, em que alguns falantes acham que estão "falando mais bonito" ao usar a ênclise, e a usam mesmo quando há fator de próclise. É conhecida de todos aquela tenebrosa placa dos elevadores, que diz "Antes de entrar no elevador, verifique se o mesmo encontra-se neste andar." Fora todos os outros problemas que ela tem, a frase ainda usa a ênclise numa oração subordinada, o que traria naturalmente o pronome para antes do verbo. Usa-se muito também a ênclise em formas de particípio, proibida pela norma-padrão. Outro caso é justamente a frase célebre a que o título do post faz referência. "Fi-lo porque qui-lo" ignora que a conjunção "porque" inicia uma subordinação e que, dessa forma, a norma-padrão aconselharia "Fi-lo porque o quis". Mas num país em que ênclise é sinal de erudição, o vulgo bate palma.

Então, para resumir a história: no Brasil, se usa a próclise, sempre. Mesmo em início de frase (apesar de a gramática condenar este uso). Mesmo na língua escrita. Mesmo em textos formais. Mesmo de escritores cultos. Isso configura uma diferença estrutural entre as línguas do Brasil e de Portugal, uma vez que a colocação dos pronomes tem implicações no som, na ordem, na regência, no léxico, na semântica e no uso.

Me fiz claro? Então tá. Até o fim do ano eu explico o caso dos objetos.


* Nesse caso, não cabe mais falar em "ênclise", pois o termo se refere somente ao uso dos pronomes átonos, ou clíticos.
** SCHWARZ, Roberto. Um mestre na periferia do capitalismo. Livraria Duas Cidades, Editora 34. Não lembro a página em que achei a frase. Mas aproveita e lê o livro todo, vai.

5 de abril de 2007

O português são dois

Num conhecido poema seu, Drummond afirma, lembrando suas aulas em criança, que "o português são dois: o outro, mistério". Ele se refere, no caso, à diferença entre o português falado e a norma-padrão escrita, aprendida na escola. O fato é que o português do Brasil é mesmo um tanto esquizofrênico, porque a sua forma padronizada está vinculada ao português de Portugal, enquanto sua forma falada, e mesmo as normas cultas modernas, são completamente independentes do que se fala do outro lado do Atlântico. Disso resulta que a língua que se fala e se aprende em casa e nas ruas é tão radicalmente diferente da que se aprende na escola e nas gramáticas, que o falante brasileiro vive sob aquele velho estigma de que não sabe falar português, ou que fala tudo errado e que português é muito difícil etc. (O português é, para falar a verdade, uma língua gramaticalmente mais complicada que, por exemplo, o inglês; basta ver a quantidade de flexões possíveis de uma palavra — os verbos principalmente — no português e compará-la com a de flexões das palavras do inglês. Por outro lado, o inglês apresenta maior dificuldade no que diz respeito ao léxico, ou seja, a quantidade de palavras do inglês é bem maior que no português, o que representa um problema grave para quem aprende aquela língua, sobretudo suas variedades mais formais. Outra dificuldade no inglês é a diferença entre a grafia das palavras e sua pronúncia; mas nisso a língua francesa é muito pior, o que, levando-se em conta a complexidade de sua morfossintaxe, a torna certamente mais difícil que o português e que o inglês. Fecha parêntesis.)
O que torna o português uma língua tão cheia de armadilhas é, antes de tudo, a noção errada de que a língua certa está lá no Velho Mundo e o que falamos aqui é uma corruptela, uma versão mal-adaptada, tosca e ignorante da bela língua de Camões. Nada disso é verdade. Primeiro que, em Portugal, hoje, não se fala mais a mesma língua de Camões; ou melhor, é a mesma, mas mudou. Mudou porque, mesmo na época de Camões, aliás mais ainda nela, não se falava apenas uma modalidade de língua em Portugal, ou seja, a língua apresentava variação. Ora uma variante prevalecia, ora outra, até que se fixou mais ou menos um padrão, que foi sendo lentamente modificado, apesar do conservadorismo linguístico dos nossos irmãos portugas. Foi sendo modificado porque lá, em Portugal, havia contatos e variantes linguísticas específicas, bem como transformações socioeconômicas as quais não havia por aqui, nem à época da Colônia, nem depois. Donde se deduz naturalmente que as mutações pelas quais a língua passou aqui foram diferentes das mudanças pelas quais ela passou lá.
Para não me estender muito, porque não é essa a intenção, digamos que o que foi dito basta como introdução ao assunto de que queremos tratar. Voltando ao ponto inicial, o fato é que a norma-padrão que adotamos hoje como “língua oficial do Brasil” é uma variedade linguística imprópria ao País, a qual não corresponde ao que quase duzentos milhões de pessoas aprendem e usam todos os dias. A maioria dos gramáticos e professores de português usa esse fato como um instrumento de poder, como se eles fossem donos de uma verdade inacessível à massa ignara, o que cria uma relação de dependência que afeta a autoestima da maior parte dos brasileiros e lhes tira a muitos deles o acesso à plena cidadania, dado que quem não fala certo não pode ocupar certas posições sociais etc etc. O que fazer então? Acabar com a norma-padrão e decretar que cada um fala e escreve como der na telha? Não seria boa ideia. Uma padronização linguística é necessária por motivos óbvios, com benefício para o mercado editorial, a imprensa, a correspondência oficial etc, e por motivos mais sutis, como a preservação mesma da unidade linguística nacional e, consequentemente, da sua unidade social, territorial, política.
Então que fazer? Parece-me que as respostas mais adequadas são aquelas que se propõem a estudar e sistematizar a língua usada no Brasil. Em outras palavras, se trataria de concluir que a forma padrão no Brasil é “se trataria” e não “tratar-se-ia”, por exemplo; ou seja, desvincular a norma-padrão brasileira da portuguesa. Não se trata de mudar o nome da língua para brasileiro; mas, sim, de entender, estudar e ensinar o português que se fala no Brasil, independentemente do que estiver ocorrendo em Portugal. Mais ou menos assim: em vez de a gramática (aliás excelente) do Bechara se chamar Moderna gramática portuguesa, poderia se chamar “Moderna gramática brasileira”, ou “Moderna gramática do português brasileiro”. Ou a do Celso Cunha, olha que bonito: “Novíssima gramática do português brasileiro contemporâneo”. Em vez de me ensinarem na escola que o certo é “Dá-me um café”, como se fala (sim, se fala, desde os primeiros anos de vida de uma criança) em Portugal, me ensinariam a dizer (e escrever), corretamente, “Me dá/dê um café”. Por favor.
Isso se justifica? Será que as diferenças entre o português do Brasil e o europeu não se resumiriam simplesmente à pronúncia e ao vocabulário, motivo aliás tão grande de piadas entre os dois povos? Quando lê, por exemplo, um texto formal escrito em Portugal, o brasileiro não entende perfeitamente? Sim, claro, desde que ele tenha estudado, porque o que ele aprendeu na escola, na mesma aula que o Drummond, foi o português de Portugal. Nós somos especialistas em português padrão de Portugal. (Digo o padrão porque, caso lêssemos um texto informal português, estranharíamos deveras, porque não foi isso que aprendemos na escola; mas isso é assunto para depois; enquanto isso, experimente ler, num blogue português, a caixa de comentários, que normalmente é mais informal que as postagens.)
Mas, como conhecemos muito a língua de Portugal e estudamos pouco a do Brasil, não percebemos as diferenças tão importantes que há entre as duas. Diferenças estruturais, sintáticas, não apenas de pronúncia e de vocabulário. Verificar e compreender algumas dessas diferenças será a tarefa deste blogue e de seus dois ou três leitores nas duas ou três próximas postagens.
Até breve.

24 de fevereiro de 2007

Voz passiva

Marcos Bagno e outros importantes linguistas brasileiros chegaram a uma conclusão surpreendente: não existe voz passiva sintética no português do Brasil. Por isso se diz naturalmente "Vende-se carros", "Joga-se búzios", "Aluga-se casas para temporada" etc.
Mas peraí. Vamos dar dois passos atrás e ver o que é voz passiva sintética.

Em toda estrutura oracional, a relação entre o sujeito e o verbo é privilegiada pela gramática tradicional. Portanto é a primeira relação que se deve estabelecer numa análise sintática. Há duas restrições: o sujeito deve ter caráter substantivo e não pode vir preposicionado. E é ele quem conjuga o verbo, ou seja, o verbo concorda em número, pessoa e gênero (no caso da voz passiva) com o sujeito. Então, por exemplo, em "Vende-se carros", a interpretação tradicional manda que, em primeiro lugar, se encontre o sujeito do verbo vender. "Carros" tem caráter substantivo e não está preposicionado. É, de fato, o sujeito e, por isso, o verbo deve manter concordância com ele. Daí "Vendem-se carros". A Linguística moderna diz que isso é forçar a barra e não encontra respaldo para essa concordância no uso brasileiro da língua. Estão com a razão. Na língua coloquial, usa-se esta estrutura como voz ativa. Mas a norma-padrão ainda obriga o uso da estrutura passiva sintética (pronominal).
As dúvidas são frequentes, porque o falante entende que "carros" é objeto, e não sujeito. Daí frases como a que mencionei na postagem anterior: "Isolou-se-a". Isso é para evitar dizer "Isolou-se ela", que parece errado, mas está certo. Por quê? Porque "ela" é sujeito de "isolou-se". Outro exemplo:

Não se veem turistas por aqui.
Se eu quiser pronominalizar o termo "turistas", fica como? Não se os veem por aqui? Não. O pronome "os" é oblíquo, funciona como objeto. E "turistas", lá em cima, é sujeito paciente (semanticamente, vale como "Turistas não são vistos"). Se é sujeito, o pronome que o substitui é reto: no caso, ele. Fica assim, então:

Não se veem eles por aqui.
Isso só pode ocorrer na voz passiva. Na ativa, por exemplo, "Não vejo turistas por aqui", a pronominalização de "turistas" (que é objeto; o sujeito é "eu") obriga o uso do pronome oblíquo. Fica "Não os vejo por aqui".

Resumo da ópera, voz passiva sintética existe, sim, apesar de não usual na língua falada no Brasil. Mas a norma-padrão pede o seu uso, e em situações de formalidade deve-se seguir ela.
Opa! Se você prestou atenção na postagem anterior, vai perceber que, nessa frase que eu acabei de escrever, valia também dizer "deve-se segui-la".

Ai, agora complicou tudo...


29 de janeiro de 2007

Pode-se fazer duas concordâncias

Isso mesmo. Ou "podem-se fazer duas concordâncias" ou "pode-se fazer duas concordâncias". Essa estrutura tem dupla possibilidade de concordância porque pode ser analisada de duas maneiras diferentes. A primeira possibilidade é considerar poder fazer como uma locução verbal e, portanto, tratá-la como uma estrutura de voz passiva. Assim:
- podem fazer = locução verbal;
- duas concordâncias = sujeito;
- se = pronome apassivador.
A segunda análise possível trata a frase como um período composto (ou oração complexa, na denominação extremamente cabível de Evanildo Bechara, da qual podemos falar noutra ocasião), considerando fazer duas concordâncias como uma oração subordinada. Assim:
- pode = oração principal, na voz passiva;
- fazer duas concordâncias = oração subordinada substantiva subjetiva.
Na primeira análise, o verbo poder fica no plural para concordar com seu sujeito, duas concordâncias. Na segunda análise, o verbo poder fica no singular porque seu sujeito é uma oração (fazer duas concordâncias) e, nesse caso, o verbo fica sempre no singular.

No caso da frase que usei aqui, "Ouve-se pessoas dizerem", a análise que faço é a seguinte:
- ouve-se = oração principal, sendo o se
pronome apassivador;
- pessoas dizerem = oração subordinada substantiva
subjetiva, ou sujeito oracional.
Portanto, se o verbo tem sujeito oracional, fica no singular. Se eu dissesse "ouvem-se pessoas dizerem", eu cometeria uma estrutura que ainda não vi nenhuma gramática esclarecer bem, a qual mistura a voz passiva com o sujeito do infinitivo. Está certa? Provavelmente sim. Analisamos o caso noutra oportunidade.
O fato é que muita gente, inclusive professores e bancas examinadoras, acreditam que estruturas como Pôde-se ouvir os tiros ou Deve-se considerar esses problemas estão erradas. E não estão. Dica de macaco velho: em provas e concursos, use Puderam-se ouvir os tiros e Devem-se considerar esses problemas, só para garantir.
Aliás, voz passiva sintética é uma estrutura muito discutida e bastante intrigante da língua, e gera dúvidas as mais diversas. Por exemplo, hoje li num livro sobre relações internacionais a seguinte frase: "Quanto à Argentina, isolou-se-a da discussão por meio da construção de novos eixos etc". Isolou-se-a? Está certo isso?
Resposta e análise no próximo capítulo.

16 de dezembro de 2006

For all

Um dos estudos mais interessantes que alguém interessado na Língua pode fazer é a etimologia, ou seja, o estudo da origem das palavras. Saber de onde vêm as palavras, qual sua significação original e por que transformações elas passaram ao longo dos tempos é tão excitante quanto útil no dia a dia. Por exemplo, por que a palavra obsessão é com "s" e obcecado é com "c"? Porque se originam de palavras diferentes. Obcecado vem de "cegar" (em latim, caecare ou obcaecare), portanto designa alguém que está cego ou cegado (por um desejo muito forte, por exemplo). O substantivo correspondente é obcecação. A palavra obsessão vem do latim obsessio, onis, que significa assédio, cerco, bloqueio ou ação de sitiar. O verbo mais próximo é obsedar, que vem do francês obséder e do latim obsidere, com a mesma significação de cercar, importunar, assediar. Daí obsessivo.
Um dos melhores dicionários para estudo etimológico é o Houaiss (que se pronuncia "uais", e não "rouêis"). Além da origem, ele traz a datação, ou seja, a data em que tal palavra foi primeiramente registrada.
Agora, eu me divirto mesmo é com o pessoal que inventa etimologia. Sobre isso, leia-se um ótimo artigo de Mário Perini, "Etimologia popular: falsos parentes", no livro A língua do Brasil amanhã e outros mistérios, da editora Parábola. Aos exemplos que ele traz acrescento alguns outros que já cansei de ouvir. Para começar, acho que quase todo o mundo já ouviu alguém explicar que "forró" vem do inglês for all, para todos. É claro, todo o mundo sabe que, pouco depois de inventarem o futebol, os ingleses inventaram uma dança para distrair depois do chá, em que os britânicos esqueciam sua tradicional discrição e saíam rodopiando pelos salões da nobreza, ao som da sanfona. Ora, fala sério, até quem é mais bobinho desconfia. Forró é redução de forrobodó, palavra brasileiríssima, de origem na língua portuguesa. O Houaiss ainda explica que essa palavra tem parentesco com o francês faux-bourdon. Está lá, é só abrir e ler.
Outra curiosidade são os textos que explicam as origens de determinadas expressões idiomáticas. Há muitos dicionários e pouca fidedignidade no que se diz. Por exemplo, a expressão "feito nas coxas" (malfeito, feito de qualquer jeito) tem várias explicações. Uma vez li que ela vinha do tempo dos escravos, que fabricavam telhas usando como molde as próprias coxas. Como cada um tinha a respectiva de um tamanho, o telhado acabava todo torto. Ou seja, feito nas coxas. Outra vez li que vem do tempo dos cavaleiros, que trocavam mensagens durante suas viagens e, para não perder tempo desmontando, as escreviam apoiadas na coxa, o que resultava numa porcaria, claro. Não acredito em nenhuma das duas. Mas me divirto lendo as explicações. Dessa e de várias outras.

Bom, é isso. Quem souber ou quiser saber de outras, deixa o recado aí.
Até!

11 de dezembro de 2006

Critérios de valoração de um livro

Que critérios se devem adotar para julgar se um livro é bom ou ruim? Tentamos responder a essa pergunta no texto abaixo.


Um livro é um grande livro não pela história que conta, mas por elementos que vão muito além do que uma leitura desatenta possa revelar. Não é porque se lê um livro num só fôlego, sem se conseguir largar, que ele é um grande livro. Na verdade, os livros que mais me marcaram foram aqueles que passei meses lendo, ainda que curtos. Não é porque o livro é fácil de ler, ou porque o leitor se identifica com o personagem, que ele é bom. Quando aprecio um livro, buscando responder à pergunta “É bom?”, costumo levar em conta as seguintes características:

Linguagem:

Este é, certamente, o elemento mais importante a ser observado num texto literário. A elaboração formal, a coerência entre a linguagem e o estilo (ressalte-se que linguagem e estilo não são a mesma coisa), a concisão necessária ou a construção intencionalmente perifrástica, prolixa; enfim, esse é o elemento básico da construção de um bom livro. Por isso muitos livros perdem completamente o interesse quando (mal) traduzidos. O contrário também é válido.

Referências:

Não que um bom livro tenha de se encher de citações. Ao contrário, elas costumam deixar o texto pedante. Mas é sempre um índice de criatividade formal a menção, tácita ou evidente, a outra obra ou autor. Para o meu gosto, quanto mais discreta for a referência, melhor; mas essa é uma idiossincrasia. O fato é que uma construção propositalmente ambígua, que estabeleça intertextualidade, ou o recurso à paráfrase e à paródia enriquecem o texto. É desnecessário dizer — mas o digo — que o efeito causado depende da sensibilidade do escritor e, evidentemente, da bagagem de leitura do leitor.

Ponto de vista:

Toda história é contada a partir de um ponto de vista. Mesmo que o narrador seja de terceira pessoa e onisciente. Ele adota um ponto de vista. Se isso não estiver claro, o texto é ruim. Simples assim. Esse ponto de vista pode ser o de um personagem do texto, ou de vários, mas pode ser algo mais, digamos, distanciado. Mas não impessoal. O narrador pode ter um ponto de vista irônico, lamurioso, heroico (como nas epopeias). E esse ponto de vista, é desnecessário dizer (mas digo, mas digo), precisa de coerência. Esse é o aspecto em que muitos livros se enfraquecem. Subitamente, o narrador solta um comentário, ou um adjetivo, enfim, que faz o leitor se perguntar: quem teria dito isso? Ponto negativo para o livro.

Verossimilhança:

Corresponder a história à realidade estrita não é exatamente uma obrigação do ficcionista. Mas é necessária uma coerência interna. A história deve ser crível dentro do próprio universo que ela cria. Excetuam-se, evidentemente, os possíveis jogos a que autores podem recorrer, criando situações notoriamente incoerentes. Contudo, mesmo aí, deve haver uma intenção, normalmente de comismo. Se o autor, a sério ou sem o perceber, cria situações ou personagens que não correspondem aos parâmetros da realidade ou às características ficcionais do próprio enredo, o livro perde em qualidade. Aqui, aliás, escorrega a maioria dos best-sellers da atualidade. Histórias mirabolantes, encontros inesperados e personagens traiçoeiros são ingredientes que, quando bem-empregados, rendem interesse à obra. Quando bem. E, portanto, raramente.

Há outros critérios, mais sutis, como a consideração do contexto histórico de produção do livro. Mas quero dedicar-me a rebater alguns que, definitivamente, não garantem valor a uma obra. Por exemplo, a tal originalidade. Ora, se se tomar essa palavra em sentido estrito, a última vez que se pôde falar em originalidade em Arte foi na, sei lá, Grécia Antiga? O fato é que não há muito o que escrever que não tenha sido escrito já. Nada, na verdade. Outra ideia boba é que um livro é bom se o enredo é intrigante. Disso já falamos no início. Qual é a história do livro? Esta é uma pergunta inútil. Temas banais fazem grandes obras. Depende de outros critérios. Outro elemento que pode servir de valoração é o engajamento. Ora, uma obra defender uma determinada pregação, explicitamente, pode ter efeito positivo no âmbito da sua repercussão, e até no significado histórico desse trabalho. Mas raramente um texto com a intenção primeira de transformar o mundo resulta num grande livro.

Para não ficarmos só na teoria, podemos enumerar alguns exemplos do que foi dito. Machado de Assis escreveu uma das obras capitais da literatura brasileira, aclamada mundialmente, a partir do tema da traição. Nada mais manjado, certo? Errado, porque o trunfo do nosso escritor não foi o tema, mas um conjunto de opções formais que fizeram de Dom Casmurro o que ele é. Primeiramente, a linguagem. A prosa machadiana flui, é agradável, encanta apenas pela própria beleza das imagens, das palavras, dos contrastes entre termos muito próximos, que geram efeitos estéticos que, numa leitura de fruição, muitas vezes nem decodificamos, mas são captados. Outro ingrediente marcante é o ponto de vista adotado. A história de Bentinho ganha interesse adicional porque é contada sob seu próprio ponto de vista, mas não o do mesmo Bentinho personagem, pois D. Casmurro já está velho quando narra a história. Essa escolha, evidentemente, afeta muito o enredo. O leitor é conduzido, na trama, por um narrador velho, desmemoriado e tendencioso. Quem fica perdendo tempo discutindo se Capitu o traiu ou não, na verdade, não percebeu o jogo proposto pelo escritor. Como vamos acreditar no que D. Casmurro nos diz, se o objetivo dele ao escrever a obra é justamente buscar, numa memória fraca e arrependida, motivos para justificar sua desconfiança e suas atitudes contra Capitu? Uma historinha de amor e ciúme: mas um grande livro.

Outro autor de que gosto muito é o português José Saramago. Muita gente o critica pelo conteúdo às vezes ingenuamente idealista de seus textos. Críticas bobas ao capitalismo etc. Mas, veja-se, Saramago não me parece preocupado em apregoar o socialismo em seus textos, e sim em escrever frases belíssimas e construir personagens extremamente interessantes. O que ele faz, aliás, como poucos escritores. No texto de Saramago, encontramos uma mistura frequente — e muito gostosa — da linguagem informal, dos ditados populares, das expressões familiares, com uma sintaxe complexa, rica e bem-amarrada. Ou uma mistura de personagens simples e cotidianos com emoções profundas e difíceis de compreender, porquanto extremamente humanas. Tome-se, como exemplo, o romance Memorial do convento, que muita gente não consegue ler até a décima página, outros acham o melhor livro do mundo. Eu estou mais perto do segundo grupo. É um grande livro, principalmente se analisado do ponto de vista da beleza da linguagem. Memorial do convento me parece um grande poema, uma ópera, uma epopeia. As frases, as imagens, os diálogos, toda a estruturação linguística do texto é de um grau de elaboração formidável. Por isso é um livro difícil de ler, posto que belo. Vencida a barreira do estranhamento da linguagem, lê-se ele com os olhos úmidos. Além do primor formal, Saramago nos apresenta personagens com densa caracterização psicológica, além de descrições espaciais que, ainda que longas — às vezes muito longas —, são tão ricas e nítidas, que transportam o leitor para o meio da Península Ibérica medieval.

Há autores que se destacam pela maneira como rompem drasticamente a estrutura padrão de um texto. Dependendo do grau de intencionalidade dessas rupturas, podemos ter um grande livro. Quando penso em um autor que, de modo magistral, tenha feito essa inovação formal, o primeiro nome que me lembra é o de Jorge Luis Borges. Criatividade temática e formal, aliada a um incomparável domínio da língua e seus recursos, eis os trunfos desse autor. Em Borges, na verdade, encontramos uma tal quantidade de recursos, que se torna impossível (ou desinteressante) falar dele sem ler um texto concreto. Mais adiante, se interessar, podemos ler e analisar um dos contos dele por aqui.

Dados os exemplos, fica a dica: a leitura de um livro não é mera distração; pressupõe análise, avaliação, critérios razoavelmente bem-definidos. Se não, continuaremos comprando como best-sellers uma quantidade enorme de livros que não passam de ficção.

4 de dezembro de 2006

Antes de mais nada

Antes de mais nada, vamos deixar claro: este não é um blogue de "dicas de português para concursos", ou coisa similar. Também não é a coluna do Pasquale ou da Dad, para ficar apitando falta enquanto o pessoal vai falando. A norma-padrão é um modelo, uma referência, e não o jeito certo de falar. A Gramática serve para entender a língua, e não para ninguém entender nada, como acontece frequentemente nas escolas e cursinhos. A língua é para usar e abusar. E os usos ditam as regras. Uma língua não perde suas características estruturais quando alguém diz "pra mim fazer". Vale a pena, na verdade, investigar o que leva tantos falantes a usarem essa estrutura, e por que ela deve ser corrigida em contextos de maior formalidade. Recomendo, sobre esse assunto, conhecer a Gramática de usos, citada aí do lado.
A expressão que intitula esta postagem, por exemplo, é considerada errada pelos paragramatiqueiros de plantão. Não é errada. O português tem diversos casos de dupla negação, principalmente com pronomes como "nada", "nunca" e "ninguém". Quando eu digo "Não vi ninguém", não disse que vi alguém, certo? Então, "antes de mais nada" não traz dúvida alguma quanto ao seu sentido. Aliás, várias outras línguas usam dois elementos de negação, como o pas do francês (que é só uma das possíveis expressões negativas que se casam com o ne).

Quer saber de uma expressão que, esta sim, diz o contrário do que aparenta? "Correr atrás do prejuízo". Ouço e fico imaginando o mané lá, correndo até alcançar o prejuízo. Aonde?! Eu corro atrás de lucro ou, no mínimo, fujo do prejuízo. Mas cada um corre atrás do que quer, então deixa estar.

É claro que, apesar de não estar aqui para bancar a polícia da língua, vamos sacanear impiedosamente textos mal-escritos e mal falados que surgirem por aí. Por exemplo, tem um cartaz do PT, contra a ALCA, fixado no gabinete de um deputado aqui de Brasília, o qual diz o seguinte: "NENHUM ACORDO É MELHOR DO QUE UM ACORDO RUIM". Mandou mal, meu querido, você disse o contrário do que queria. Quem aí sugere uma correção interessante?

A Letra mata

A Língua é um cipoal, perigoso e imprevisível. O poder da palavra não se restringe à criação divina iniciada com o sonoro "Faça-se a luz". Temos todos acesso a esse mecanismo poderoso de... ação. Porque usar a língua corresponde a um ato, uma ação. Dizem por aí que um gesto vale mais que mil palavras. Tenho minhas dúvidas. As palavras são mais fortes que os gestos. É caso de saber usá-las, claro. Daí a importância de compreender esse instrumento (chamar a língua de instrumento é tão impreciso quanto, sei lá, chamar minhas pernas de veículo; mas deixa ficar). A palavra escrita é mais perigosa que a palavra falada? Pode ser, mas pode não ser. Normalmente, a palavra escrita tem maior valor de verdade, por assim dizer. Se está escrito, dá-se maior credibilidade. Talvez por isso ela seja mais perigosa, sim, por seu potencial enganoso. Mas a palavra falada, com sua espontaneidade, naturalidade, sua pressa, pode ser bem mais traiçoeira que a outra, relida e refeita.
O fato é que, falando ou escrevendo, é necessário conhecer a Língua, em seus mínimos detalhes, suas entrelinhas, suas etimologias. Afirmou-se que a língua é sempre contemporânea, sincrônica, como um jogo de xadrez, em que não é necessário o jogador saber o que ocorreu antes, interessa apenas a disposição atual das peças. Ora, só se for para quem fala. Quem estuda a língua precisa conhecer seu passado, o dela. Sua história. E seus disfarces. Palavrinhas que fugiram há tempos do idioma voltam disfarçadas de estrangeirismo. E tem gente querendo proibi-las, achando tratar-se de dominação cultural estrangeira. A língua é cheia de armadilhas, mesmo.
Mas ela não é difícil. Se bem tratada, faz todos os nossos desejos. Se bem.

Aqui, portanto, temos um espaço para discutir a língua e aprender sobre ela. Falaremos de questões gramaticais, usos da norma-padrão e das variedades coloquiais, sociolinguística, leitura, escrita, literatura. Dúvidas são bem-vindas. Correções e acréscimos, também.

Enjoy. Ou seja, vamo' cair dentro!