Finalmente, vende-se carros: o entendimento de "carros" como objeto me permitiria substituir o termo pelo pronome "os", como qualquer outro objeto (li um livro: li-o ou o li; comprei um carro: comprei-o ou o comprei etc). Pelo mesmo critério, a frase ficaria: Vende-se-os? Os vende-se? Vende-os-se? Se os vende? Ora, qualquer falante de português sabe que essas frases não existem, ninguém diria jamais "vende-se-os". É uma forma impossível na estrutura do português. Donde se conclui que não posso considerar "carros" como objeto. Apesar disso, parece evidente que os carros não vão vender nada. De modo que também não se trata do agente da ação. O estudo atento mostra, no entanto, que o sujeito de um verbo pode indicar o agente da ação ou o paciente dela, ou mesmo nem um nem outro, quando o verbo não expressa ação. Sujeito é uma noção sintática, cuja definição tem a ver com a conjugação do verbo na variedade padrão da língua. Quanto conjugamos um verbo (eu tenho, tu tens, ele tem etc), estamos testando exatamente o funcionamento desse verbo com os seis sujeitos possíveis. Isto quer dizer que o sujeito é, sintaticamente, a explicitação de uma dessas seis alternativas. Às vezes isso coincide com o agente da ação. Mas não na voz passiva, em que o verbo seleciona como sujeito justamento o paciente, e não o agente da ação.
12 de março de 2013
Vende-se carros
Finalmente, vende-se carros: o entendimento de "carros" como objeto me permitiria substituir o termo pelo pronome "os", como qualquer outro objeto (li um livro: li-o ou o li; comprei um carro: comprei-o ou o comprei etc). Pelo mesmo critério, a frase ficaria: Vende-se-os? Os vende-se? Vende-os-se? Se os vende? Ora, qualquer falante de português sabe que essas frases não existem, ninguém diria jamais "vende-se-os". É uma forma impossível na estrutura do português. Donde se conclui que não posso considerar "carros" como objeto. Apesar disso, parece evidente que os carros não vão vender nada. De modo que também não se trata do agente da ação. O estudo atento mostra, no entanto, que o sujeito de um verbo pode indicar o agente da ação ou o paciente dela, ou mesmo nem um nem outro, quando o verbo não expressa ação. Sujeito é uma noção sintática, cuja definição tem a ver com a conjugação do verbo na variedade padrão da língua. Quanto conjugamos um verbo (eu tenho, tu tens, ele tem etc), estamos testando exatamente o funcionamento desse verbo com os seis sujeitos possíveis. Isto quer dizer que o sujeito é, sintaticamente, a explicitação de uma dessas seis alternativas. Às vezes isso coincide com o agente da ação. Mas não na voz passiva, em que o verbo seleciona como sujeito justamento o paciente, e não o agente da ação.
14 de dezembro de 2010
Uma vírgula!
19 de abril de 2010
Autor publicado!
31 de março de 2010
Pergunte-me como
30 de março de 2010
Crase
1) A história do Brasil está intimamente ligada à das grandes navegações europeias.
2) Nossa história está ligada à que nossos avós contam. (pronome)3) Nossa história está ligada à de vocês. (preposição)4) Nossa história está ligada à portuguesa. (adjetivo)5) Nossa história está ligada à contada nos livros. (verbo)6) Nossa história está ligada à sua. (pronome possessivo)
7) Nosso passado está ligado ao das grandes navegações.8) Nosso passado está ligado ao seu. (Veja que o "ao" é obrigatório, assim como a crase seria se a palavra fosse feminina.)
9) Os afastamentos obrigatórios são áreas destinadas a passagem eventual de encanamento ou fiação de interesse público blablablá.
10) A tubulação destinada à fiação antiga do prédio será substituída etc.
11) O evento vai de 10h a 11h.12) O evento vai das 10h às 11h.
13) Eles saíram há pouco tempo, há dois dias, há uma semana. Eles estão aqui há três dias.14) Vamos sair daqui a pouco, daqui a duas semanas, às três horas. Estamos a três quilômetros do centro, estamos a cinco minutos da estação.
Horário de funcionamento:Segunda à sexta: 8h as 22h.Sábados: 9h às 23h.Domingos e feriados: 12h ás 19h.
15) Visitei Veneza (sem artigo). Portanto, vou a Veneza.16) Visitei a Itália (com artigo). Vou à Itália.
21 de janeiro de 2009
Desacordo ortográfico
O melhor (ou pior) exemplo dessa diferença e dos problemas que ela implica para quem precisa usar adequadamente a variedade padrão da língua, no Brasil, é a colocação pronominal. Meus alunos, para ficar só num caso, torcem o nariz e duvidam de mim quando eu digo que a língua falada no Brasil prefere a próclise (isto é, o pronome átono antes do verbo, como em "me deitei"), sempre, mesmo no nível formal. Eles estranham porque leram em gramáticas e ouviram dos professores, a vida toda, que o certo é sempre sempre sempre a ênclise (como em "deitei-me"), e acreditam piamente nisso, mesmo nunca tendo usado na vida uma ênclise sequer, exceto na escola e em provas de concurso. Isso é um problema, que é difícil de resolver. Se eu pudesse, nem falava de regra de colocação pronominal em sala. Mas não posso, aí eu falo, e os alunos me olham feio se eu ensino o que a gramática diz e se eu me recuso a ensinar o que a gramática diz. Vida de professor não é fácil...
Mas não era para isso que eu ia escrever hoje. Mas tem a ver. O português do Brasil e o de Portugal são tão diferentes, que nem o Acordo Ortográfico conseguiu resolver o problema do porquê. Já expliquei aqui como funciona o porquê no Brasil. Agora vou explicar como é em Portugal e, vejam só, é bem diferente. E vai continuar diferente. Mesmo com a unificação da ortografia.
Prepare-se: em Portugal, o porque é sempre junto. Mesmo na pergunta. Entendeu? Então tá, pode ir. Não, espera! Tem um que é separado: é quando o que é pronome relativo. É um caso fácil: pronome relativo é um que que vem sempre referido a um substantivo anterior. Assim:
"Não entendi o motivo por que você foi embora."Está vendo que o "que" se refere a "motivo"? Não? Substitua, então, na segunda oração. Fica assim: "você foi embora por esse motivo". Tem outros exemplos disso na postagem sobre o porquê no Brasil. Neste caso, o uso nos dois países é idêntico.
O resto é junto, sempre. Eles consideram o porque um advérbio interrogativo, quando usado em frases interrogativas diretas e indiretas, e uma conjunção, quando expressa causa, finalidade ou coordenação explicativa. Olha os exemplos:
1) Porque você não veio?Os casos 1 e 2 são exemplos de advérbio interrogativo. São diferentes do uso no Brasil. Para o uso do porque como conjunção, fica o mesmo que nós usamos. Tem ainda um caso especial em Portugal: se o porque vier no fim da pergunta, ou se a frase não tiver verbo conjugado, escreve-se porquê, com acento. Assim:
2) Nunca me disseram porque você não veio.
3) Você ainda não chegou porquê?Parece mais fácil que no Brasil, certo? Mas olha que coisa: consultados alguns sites de dúvidas de português, percebi que os professores em Portugal parecem ter tanta dificuldade quanto nós, brasileiros, em ensinar o uso dos porquês para seus alunos. Quer dizer, comprova-se o que eu já tenho como convicção há um tempo: simplificar a língua não facilita o aprendizado. O que se exige do professor é que ele domine bem o que está ensinando; e do aluno, que estude o que vê em sala, senão não adianta nada.
4) Porquê esperar tanto?
5) Porquê tanta dor no mundo?
Lá na postagem sobre o porquê brasileiro eu deixei uns exercícios para os visitantes do blogue responderem, mas ninguém se atreveu, ao menos não publicamente. Dou, então, as respostas, primeiro conforme a regra brasileira, depois conforme a regra portuguesa. Mas fica a questão: se no uso dos porquês a regra pode ser diferente, e continuará sendo mesmo com a unificação ortográfica, por que (separado) não estender a lógica para outros casos, como a colocação pronominal ou algumas regras de regência verbal? Eu quero começar frases com pronome oblíquo átono! Próclise livre já!
Vamos às respostas dos exercícios:
I - Só gostaria de saber _________ a secretária não me avisou antes sobre o problema. (por que, no Brasil; porque, em Portugal)
II - Foi ruim revê-la, _________ as lembranças ainda doíam no coração. (porque, em ambos)
III - Os direitos __________ lutam os grevistas são legítimos. (por que, sempre)
IV - Ela foi embora, assim, sem mais, e nem me explicou ________. (por quê e porquê)
V - _______ o governo investe pouco em educação, os índices de analfabetismo ainda são muito altos. (porque, nos dois)
Alguma dúvida? Deixa aí nos comentários.
Até!
19 de novembro de 2008
Atualização ortográfica
Já fiz toda a atualização do Palavras à pena, e me surpreendeu constatar que são raríssimas as palavras que mudam. Sério. Ou eu devo estar usando sempre as outras. Nesta postagem aqui, por exemplo, ainda não apareceu nenhuma palavra que precise de alteração. E ainda não arrumei tempo para falar do porquê português.
Quem sabe até o fim do mês?
11 de novembro de 2008
Por quê?
Para começar, no Brasil: a palavra "porque" é uma conjunção. Sempre. O que uma conjunção faz da vida? Ela liga duas orações (ou termos simples, mas não é o caso do "porque"). Então o "porque" assim, juntinho, só aparece ligando duas orações, ainda que a primeira esteja subentendida, como acontece frequentemente em respostas diretas a uma pergunta. Essa conjunção pode ter os seguintes papéis: 1) introduz uma causa para a oração anterior, sendo portanto uma conjunção subordinativa (causal); 2) introduz uma prova, uma pista, uma explicação para a afirmação que foi feita anteriormente, e não uma causa, e assim vai se classificar como conjunção coordenativa (explicativa); 3) introduz, raramente no português moderno, uma finalidade para a oração anterior, como uma conjunção subordinativa final (a fim de que, para que etc). Vamos aos exemplos, na mesma ordem:
1) Não fui à aula hoje, porque estava doente.(Para quem gosta de classificações: o "porque" introduz uma oração subordinada adverbial causal.)
2) Deve estar chovendo fortemente, porque o barulho da água nas telhas é ensurdecedor.(O conector introduz oração coordenada explicativa: note-se que a segunda oração não é de modo algum a causa da primeira, e sim uma pista, uma prova, uma explicação.)
3) O piloto se esforçou porque obtivesse o título.(A conjunção introduz oração subordinada adverbial final: note-se que o sentido é o mesmo de "a fim de que", "para que"; neste caso, normalmente o verbo da segunda oração aparece no modo subjuntivo, ao contrário do que acontece, grosso modo, quando o "porque" tem sentido causal.)
Este é o famoso "porque" junto. Já o "por que", separado, é outra coisa, totalmente diferente: trata-se da reunião da preposição "por" com a palavra "que". O "que", neste caso, pode ser: 1) pronome relativo, referindo-se a uma palavra da oração anterior; 2) pronome indefinido ou interrogativo; 3) pronome relativo sem antecedente, funcionando como uma conjunção integrante. Este último caso é o mais difícil de classificar, mas é fácil de entender. Vamos aos exemplos:
1) por + que (pronome relativo):
A ABL explicou-me o motivo por que não haverá mudança no uso da expressão.Neste caso, o "que" refere-se diretamente à palavra "motivo", e a preposição "por" é responsável pelo sentido causal que a oração tem. Outro exemplo:
Estas são as fotos das cidades por que passamos durante nossas férias.Aqui, o "que" se refere a "cidades" e a preposição "por" é regida pelo verbo "passar".
2) por + que (pronome indefinido ou interrogativo):
Por que o Acordo não trata dessa questão?Este é caso clássico de "por que" separado. É a frase interrogativa direta, é a pergunta com ponto de interrogação no final. Perceba-se que não pode se tratar da conjunção "porque", visto que não há ligação com oração anterior. Nesta frase, o "que" é um pronome substantivo, ou seja, ele substitui um substantivo. Essa mesma frase poderia ser formulada com um pronome adjetivo, ou seja, um "que" que acompanha um substantivo, como em: "Por que razão o Acordo não trata disso?"
3) por + que (pronome relativo em função de conjunção integrante):
Não entendi por que o Acordo não trata dessa questão.Trata-se da frase interrogativa indireta, ou seja, a pergunta feita numa frase aparentemente afirmativa, sem ponto de interrogação. Sintaticamente, perceba-se que a oração introduzida pela expressão "por que" funciona como objeto direto da primeira (Não entendi essa omissão. Não entendi por que houve omissão). Dessa forma, a expressão "por que" funciona como uma conjunção integrante, aquela que introduz normalmente as orações de caráter substantivo, como é o caso. Aqui, vale ressaltar a enorme diferença de sentido que poderia fazer usar o "porque" junto em lugar do "por que" separado. Comparem-se os seguintes exemplos:
a) Ninguém entendeu bem, porque o professor estava impaciente.Na frase "a", o "porque" introduz a causa da oração anterior. Ninguém entendeu a explicação, o assunto, seja lá o que for, em decorrência da impaciência do professor. É conjunção adverbial, juntinha portanto. Na frase "b", o que os alunos não entenderam é justamente por que o professor estava impaciente, ou seja, não entenderam o motivo de o professor estar tão impaciente. A expressão "por que" introduz o objeto direto do verbo entendeu. Ela não introduz a causa da oração anterior. Separada, então.
b) Ninguém entendeu bem por que o professor estava impaciente.
O "por quê", separado e com acento, é o mesmíssimo "por que" separado dos casos 2 e 3, mas ganha acento quando a frase está invertida e o "que" é seguido de ponto final, de exclamação ou de interrogação. O professor estava impaciente, e ninguém entendeu por quê. Você não vai à festa por quê? Este time só erra gol, alguém me explique por quê!
O "porquê", junto e com acento, é o mais fácil de todos. Trata-se de um substantivo, como outro qualquer, sempre antecedido de artigo. "Não entendi o porquê de o Acordo não falar disso" (o motivo de, a razão de).
Não é difícil. Mas tem que fazer um pouco de análise sintática. Desaconselho os macetes e substituições que algumas gramáticas ensinam. Podem funcionar, mas prefiro sempre entender a estrutura a decorar um macete. Porque o macete você esquece; a estrutura, não.
Vamos exercitar um pouco? Você pode responder nos comentários, e daqui a uma semana eu dou o gabarito. (Ai, que horror, estou parecendo a Dad...) Diga como aparece o "porque" nos espaços abaixo:
I - Só gostaria de saber _________ a secretária não me avisou antes sobre o problema.
II - Foi ruim revê-la, _________ as lembranças ainda doíam no coração. (Ai, que frase brega!)
III - Os direitos __________ lutam os grevistas são legítimos.
IV - Ela foi embora, assim, sem mais, e nem me explicou ________.
V - _______ o governo investe pouco em educação, os índices de analfabetismo ainda são muito altos.
Na próxima postagem (quando será, hein?) eu explico como funciona isso em Portugal.
11 de março de 2008
Objetos
30 de agosto de 2007
Zero e falta para o preconceito
21 de agosto de 2007
Não fi-lo porque não quilo.
Colocação pronominal tem a ver com questões fonológicas ou de pronúncia. Sotaque, enfim. Todo o mundo já notou que os portugueses engolem as sílabas átonas da frase, certo? Portanto é uma língua que se organiza toda em função das sílabas fortes, provocando o deslocamento dos pronomes átonos para depois delas. Se um português iniciasse, por exemplo, uma frase com um pronome átono, o som seria tão apagado que poucos o perceberiam. "Me dá um cigarro", para citar Oswald de Andrade, sairia um mero "dá um cigarro", talvez com uma certa nasalização antes do "d". "O vi ontem" ficaria "vi ontem", e faltaria o objeto do verbo ver, e a coisa mais grave do mundo para um português é faltar um objeto (ponto que analisaremos em outra oportunidade). Por isso a regra básica de colocação pronominal em Portugal é usar a ênclise, ou seja, colocar o pronome após o verbo. "Dá-me um cigarro", "Vi-o ontem" etc. Lá só se usa próclise (pronome antes do verbo) se houver fatores sintáticos que, na cadeia frasal, estabeleçam um espaço sonoro para o pronome. É o que ocorre em subordinações, por exemplo, dado que as conjunções que as introduzem também são átonas. Aproximam-se duas expressões átonas e pronto: conseguiremos ouvir mais ou menos as duas, antes que outra explosiva sílaba tônica espalhe perdigotos nos nossos óculos.
No Brasil não tem nada disso. Os sons das sílabas ocorrem com mais uniformidade, e após as sílabas tônicas é que ocorre uma queda sonora que apaga frequentemente os sons finais átonos das palavras. Por isso, entre outros fatores, a próclise é mais natural entre nós e, quando se usa a ênclise, é comum substituir-se o pronome átono pelo tônico, como em "Vi ele ontem".*
Aliás, não só a colocação como também o uso mesmo dos pronomes funciona diferentemente. Se eu virar para minha mulher e disser: "Amo-a", ela certamente perguntará, com as unhas cravadas na minha jugular, "Quem?!". Menos grave para minha integridade física, mas ainda um tanto constrangedor, seria dizer "Amo-te", como lá na terra de Saramago se diz. Mas o bom negro e o bom branco da nação brasileira dizem todos os dias: ah, vai, eu te amo.
Isso não ocorre somente na língua falada. Os textos brasileiros escritos cada vez mais adotam como naturais estruturas como "Me deparei com uma questão" ou, como li outro dia num livro do Roberto Schwarz**, "Nos preocupamos em mostrar ao leitor...". Isso não quer dizer que os autores ignorem a prescrição da norma-padrão. Apenas não a consideram relevante. Como, de fato, não o é.
Por outro lado, ocorre frequentemente o fenômeno da hipercorreção, em que alguns falantes acham que estão "falando mais bonito" ao usar a ênclise, e a usam mesmo quando há fator de próclise. É conhecida de todos aquela tenebrosa placa dos elevadores, que diz "Antes de entrar no elevador, verifique se o mesmo encontra-se neste andar." Fora todos os outros problemas que ela tem, a frase ainda usa a ênclise numa oração subordinada, o que traria naturalmente o pronome para antes do verbo. Usa-se muito também a ênclise em formas de particípio, proibida pela norma-padrão. Outro caso é justamente a frase célebre a que o título do post faz referência. "Fi-lo porque qui-lo" ignora que a conjunção "porque" inicia uma subordinação e que, dessa forma, a norma-padrão aconselharia "Fi-lo porque o quis". Mas num país em que ênclise é sinal de erudição, o vulgo bate palma.
Então, para resumir a história: no Brasil, se usa a próclise, sempre. Mesmo em início de frase (apesar de a gramática condenar este uso). Mesmo na língua escrita. Mesmo em textos formais. Mesmo de escritores cultos. Isso configura uma diferença estrutural entre as línguas do Brasil e de Portugal, uma vez que a colocação dos pronomes tem implicações no som, na ordem, na regência, no léxico, na semântica e no uso.
Me fiz claro? Então tá. Até o fim do ano eu explico o caso dos objetos.
* Nesse caso, não cabe mais falar em "ênclise", pois o termo se refere somente ao uso dos pronomes átonos, ou clíticos.
** SCHWARZ, Roberto. Um mestre na periferia do capitalismo. Livraria Duas Cidades, Editora 34. Não lembro a página em que achei a frase. Mas aproveita e lê o livro todo, vai.
5 de abril de 2007
O português são dois
24 de fevereiro de 2007
Voz passiva
Mas peraí. Vamos dar dois passos atrás e ver o que é voz passiva sintética.
Em toda estrutura oracional, a relação entre o sujeito e o verbo é privilegiada pela gramática tradicional. Portanto é a primeira relação que se deve estabelecer numa análise sintática. Há duas restrições: o sujeito deve ter caráter substantivo e não pode vir preposicionado. E é ele quem conjuga o verbo, ou seja, o verbo concorda em número, pessoa e gênero (no caso da voz passiva) com o sujeito. Então, por exemplo, em "Vende-se carros", a interpretação tradicional manda que, em primeiro lugar, se encontre o sujeito do verbo vender. "Carros" tem caráter substantivo e não está preposicionado. É, de fato, o sujeito e, por isso, o verbo deve manter concordância com ele. Daí "Vendem-se carros". A Linguística moderna diz que isso é forçar a barra e não encontra respaldo para essa concordância no uso brasileiro da língua. Estão com a razão. Na língua coloquial, usa-se esta estrutura como voz ativa. Mas a norma-padrão ainda obriga o uso da estrutura passiva sintética (pronominal).
As dúvidas são frequentes, porque o falante entende que "carros" é objeto, e não sujeito. Daí frases como a que mencionei na postagem anterior: "Isolou-se-a". Isso é para evitar dizer "Isolou-se ela", que parece errado, mas está certo. Por quê? Porque "ela" é sujeito de "isolou-se". Outro exemplo:
Não se veem turistas por aqui.Se eu quiser pronominalizar o termo "turistas", fica como? Não se os veem por aqui? Não. O pronome "os" é oblíquo, funciona como objeto. E "turistas", lá em cima, é sujeito paciente (semanticamente, vale como "Turistas não são vistos"). Se é sujeito, o pronome que o substitui é reto: no caso, ele. Fica assim, então:
Não se veem eles por aqui.Isso só pode ocorrer na voz passiva. Na ativa, por exemplo, "Não vejo turistas por aqui", a pronominalização de "turistas" (que é objeto; o sujeito é "eu") obriga o uso do pronome oblíquo. Fica "Não os vejo por aqui".
Resumo da ópera, voz passiva sintética existe, sim, apesar de não usual na língua falada no Brasil. Mas a norma-padrão pede o seu uso, e em situações de formalidade deve-se seguir ela.
Opa! Se você prestou atenção na postagem anterior, vai perceber que, nessa frase que eu acabei de escrever, valia também dizer "deve-se segui-la".
Ai, agora complicou tudo...
29 de janeiro de 2007
Pode-se fazer duas concordâncias
A segunda análise possível trata a frase como um período composto (ou oração complexa, na denominação extremamente cabível de Evanildo Bechara, da qual podemos falar noutra ocasião), considerando fazer duas concordâncias como uma oração subordinada. Assim:- podem fazer = locução verbal;- duas concordâncias = sujeito;- se = pronome apassivador.
Na primeira análise, o verbo poder fica no plural para concordar com seu sujeito, duas concordâncias. Na segunda análise, o verbo poder fica no singular porque seu sujeito é uma oração (fazer duas concordâncias) e, nesse caso, o verbo fica sempre no singular.- pode = oração principal, na voz passiva;- fazer duas concordâncias = oração subordinada substantiva subjetiva.
- ouve-se = oração principal, sendo o se
pronome apassivador;- pessoas dizerem = oração subordinada substantiva
subjetiva, ou sujeito oracional.
16 de dezembro de 2006
For all
Um dos melhores dicionários para estudo etimológico é o Houaiss (que se pronuncia "uais", e não "rouêis"). Além da origem, ele traz a datação, ou seja, a data em que tal palavra foi primeiramente registrada.
Agora, eu me divirto mesmo é com o pessoal que inventa etimologia. Sobre isso, leia-se um ótimo artigo de Mário Perini, "Etimologia popular: falsos parentes", no livro A língua do Brasil amanhã e outros mistérios, da editora Parábola. Aos exemplos que ele traz acrescento alguns outros que já cansei de ouvir. Para começar, acho que quase todo o mundo já ouviu alguém explicar que "forró" vem do inglês for all, para todos. É claro, todo o mundo sabe que, pouco depois de inventarem o futebol, os ingleses inventaram uma dança para distrair depois do chá, em que os britânicos esqueciam sua tradicional discrição e saíam rodopiando pelos salões da nobreza, ao som da sanfona. Ora, fala sério, até quem é mais bobinho desconfia. Forró é redução de forrobodó, palavra brasileiríssima, de origem na língua portuguesa. O Houaiss ainda explica que essa palavra tem parentesco com o francês faux-bourdon. Está lá, é só abrir e ler.
Outra curiosidade são os textos que explicam as origens de determinadas expressões idiomáticas. Há muitos dicionários e pouca fidedignidade no que se diz. Por exemplo, a expressão "feito nas coxas" (malfeito, feito de qualquer jeito) tem várias explicações. Uma vez li que ela vinha do tempo dos escravos, que fabricavam telhas usando como molde as próprias coxas. Como cada um tinha a respectiva de um tamanho, o telhado acabava todo torto. Ou seja, feito nas coxas. Outra vez li que vem do tempo dos cavaleiros, que trocavam mensagens durante suas viagens e, para não perder tempo desmontando, as escreviam apoiadas na coxa, o que resultava numa porcaria, claro. Não acredito em nenhuma das duas. Mas me divirto lendo as explicações. Dessa e de várias outras.
Bom, é isso. Quem souber ou quiser saber de outras, deixa o recado aí.
Até!
11 de dezembro de 2006
Critérios de valoração de um livro
Um livro é um grande livro não pela história que conta, mas por elementos que vão muito além do que uma leitura desatenta possa revelar. Não é porque se lê um livro num só fôlego, sem se conseguir largar, que ele é um grande livro. Na verdade, os livros que mais me marcaram foram aqueles que passei meses lendo, ainda que curtos. Não é porque o livro é fácil de ler, ou porque o leitor se identifica com o personagem, que ele é bom. Quando aprecio um livro, buscando responder à pergunta “É bom?”, costumo levar em conta as seguintes características:
Linguagem:
Este é, certamente, o elemento mais importante a ser observado num texto literário. A elaboração formal, a coerência entre a linguagem e o estilo (ressalte-se que linguagem e estilo não são a mesma coisa), a concisão necessária ou a construção intencionalmente perifrástica, prolixa; enfim, esse é o elemento básico da construção de um bom livro. Por isso muitos livros perdem completamente o interesse quando (mal) traduzidos. O contrário também é válido.
Referências:
Não que um bom livro tenha de se encher de citações. Ao contrário, elas costumam deixar o texto pedante. Mas é sempre um índice de criatividade formal a menção, tácita ou evidente, a outra obra ou autor. Para o meu gosto, quanto mais discreta for a referência, melhor; mas essa é uma idiossincrasia. O fato é que uma construção propositalmente ambígua, que estabeleça intertextualidade, ou o recurso à paráfrase e à paródia enriquecem o texto. É desnecessário dizer — mas o digo — que o efeito causado depende da sensibilidade do escritor e, evidentemente, da bagagem de leitura do leitor.
Ponto de vista:
Toda história é contada a partir de um ponto de vista. Mesmo que o narrador seja de terceira pessoa e onisciente. Ele adota um ponto de vista. Se isso não estiver claro, o texto é ruim. Simples assim. Esse ponto de vista pode ser o de um personagem do texto, ou de vários, mas pode ser algo mais, digamos, distanciado. Mas não impessoal. O narrador pode ter um ponto de vista irônico, lamurioso, heroico (como nas epopeias). E esse ponto de vista, é desnecessário dizer (mas digo, mas digo), precisa de coerência. Esse é o aspecto em que muitos livros se enfraquecem. Subitamente, o narrador solta um comentário, ou um adjetivo, enfim, que faz o leitor se perguntar: quem teria dito isso? Ponto negativo para o livro.
Verossimilhança:
Corresponder a história à realidade estrita não é exatamente uma obrigação do ficcionista. Mas é necessária uma coerência interna. A história deve ser crível dentro do próprio universo que ela cria. Excetuam-se, evidentemente, os possíveis jogos a que autores podem recorrer, criando situações notoriamente incoerentes. Contudo, mesmo aí, deve haver uma intenção, normalmente de comismo. Se o autor, a sério ou sem o perceber, cria situações ou personagens que não correspondem aos parâmetros da realidade ou às características ficcionais do próprio enredo, o livro perde em qualidade. Aqui, aliás, escorrega a maioria dos best-sellers da atualidade. Histórias mirabolantes, encontros inesperados e personagens traiçoeiros são ingredientes que, quando bem-empregados, rendem interesse à obra. Quando bem. E, portanto, raramente.
Há outros critérios, mais sutis, como a consideração do contexto histórico de produção do livro. Mas quero dedicar-me a rebater alguns que, definitivamente, não garantem valor a uma obra. Por exemplo, a tal originalidade. Ora, se se tomar essa palavra em sentido estrito, a última vez que se pôde falar em originalidade em Arte foi na, sei lá, Grécia Antiga? O fato é que não há muito o que escrever que não tenha sido escrito já. Nada, na verdade. Outra ideia boba é que um livro é bom se o enredo é intrigante. Disso já falamos no início. Qual é a história do livro? Esta é uma pergunta inútil. Temas banais fazem grandes obras. Depende de outros critérios. Outro elemento que pode servir de valoração é o engajamento. Ora, uma obra defender uma determinada pregação, explicitamente, pode ter efeito positivo no âmbito da sua repercussão, e até no significado histórico desse trabalho. Mas raramente um texto com a intenção primeira de transformar o mundo resulta num grande livro.
Para não ficarmos só na teoria, podemos enumerar alguns exemplos do que foi dito. Machado de Assis escreveu uma das obras capitais da literatura brasileira, aclamada mundialmente, a partir do tema da traição. Nada mais manjado, certo? Errado, porque o trunfo do nosso escritor não foi o tema, mas um conjunto de opções formais que fizeram de Dom Casmurro o que ele é. Primeiramente, a linguagem. A prosa machadiana flui, é agradável, encanta apenas pela própria beleza das imagens, das palavras, dos contrastes entre termos muito próximos, que geram efeitos estéticos que, numa leitura de fruição, muitas vezes nem decodificamos, mas são captados. Outro ingrediente marcante é o ponto de vista adotado. A história de Bentinho ganha interesse adicional porque é contada sob seu próprio ponto de vista, mas não o do mesmo Bentinho personagem, pois D. Casmurro já está velho quando narra a história. Essa escolha, evidentemente, afeta muito o enredo. O leitor é conduzido, na trama, por um narrador velho, desmemoriado e tendencioso. Quem fica perdendo tempo discutindo se Capitu o traiu ou não, na verdade, não percebeu o jogo proposto pelo escritor. Como vamos acreditar no que D. Casmurro nos diz, se o objetivo dele ao escrever a obra é justamente buscar, numa memória fraca e arrependida, motivos para justificar sua desconfiança e suas atitudes contra Capitu? Uma historinha de amor e ciúme: mas um grande livro.
Outro autor de que gosto muito é o português José Saramago. Muita gente o critica pelo conteúdo às vezes ingenuamente idealista de seus textos. Críticas bobas ao capitalismo etc. Mas, veja-se, Saramago não me parece preocupado em apregoar o socialismo em seus textos, e sim em escrever frases belíssimas e construir personagens extremamente interessantes. O que ele faz, aliás, como poucos escritores. No texto de Saramago, encontramos uma mistura frequente — e muito gostosa — da linguagem informal, dos ditados populares, das expressões familiares, com uma sintaxe complexa, rica e bem-amarrada. Ou uma mistura de personagens simples e cotidianos com emoções profundas e difíceis de compreender, porquanto extremamente humanas. Tome-se, como exemplo, o romance Memorial do convento, que muita gente não consegue ler até a décima página, outros acham o melhor livro do mundo. Eu estou mais perto do segundo grupo. É um grande livro, principalmente se analisado do ponto de vista da beleza da linguagem. Memorial do convento me parece um grande poema, uma ópera, uma epopeia. As frases, as imagens, os diálogos, toda a estruturação linguística do texto é de um grau de elaboração formidável. Por isso é um livro difícil de ler, posto que belo. Vencida a barreira do estranhamento da linguagem, lê-se ele com os olhos úmidos. Além do primor formal, Saramago nos apresenta personagens com densa caracterização psicológica, além de descrições espaciais que, ainda que longas — às vezes muito longas —, são tão ricas e nítidas, que transportam o leitor para o meio da Península Ibérica medieval.
Há autores que se destacam pela maneira como rompem drasticamente a estrutura padrão de um texto. Dependendo do grau de intencionalidade dessas rupturas, podemos ter um grande livro. Quando penso em um autor que, de modo magistral, tenha feito essa inovação formal, o primeiro nome que me lembra é o de Jorge Luis Borges. Criatividade temática e formal, aliada a um incomparável domínio da língua e seus recursos, eis os trunfos desse autor. Em Borges, na verdade, encontramos uma tal quantidade de recursos, que se torna impossível (ou desinteressante) falar dele sem ler um texto concreto. Mais adiante, se interessar, podemos ler e analisar um dos contos dele por aqui.
Dados os exemplos, fica a dica: a leitura de um livro não é mera distração; pressupõe análise, avaliação, critérios razoavelmente bem-definidos. Se não, continuaremos comprando como best-sellers uma quantidade enorme de livros que não passam de ficção.
4 de dezembro de 2006
Antes de mais nada
A expressão que intitula esta postagem, por exemplo, é considerada errada pelos paragramatiqueiros de plantão. Não é errada. O português tem diversos casos de dupla negação, principalmente com pronomes como "nada", "nunca" e "ninguém". Quando eu digo "Não vi ninguém", não disse que vi alguém, certo? Então, "antes de mais nada" não traz dúvida alguma quanto ao seu sentido. Aliás, várias outras línguas usam dois elementos de negação, como o pas do francês (que é só uma das possíveis expressões negativas que se casam com o ne).
Quer saber de uma expressão que, esta sim, diz o contrário do que aparenta? "Correr atrás do prejuízo". Ouço e fico imaginando o mané lá, correndo até alcançar o prejuízo. Aonde?! Eu corro atrás de lucro ou, no mínimo, fujo do prejuízo. Mas cada um corre atrás do que quer, então deixa estar.
É claro que, apesar de não estar aqui para bancar a polícia da língua, vamos sacanear impiedosamente textos mal-escritos e mal falados que surgirem por aí. Por exemplo, tem um cartaz do PT, contra a ALCA, fixado no gabinete de um deputado aqui de Brasília, o qual diz o seguinte: "NENHUM ACORDO É MELHOR DO QUE UM ACORDO RUIM". Mandou mal, meu querido, você disse o contrário do que queria. Quem aí sugere uma correção interessante?
A Letra mata
O fato é que, falando ou escrevendo, é necessário conhecer a Língua, em seus mínimos detalhes, suas entrelinhas, suas etimologias. Afirmou-se que a língua é sempre contemporânea, sincrônica, como um jogo de xadrez, em que não é necessário o jogador saber o que ocorreu antes, interessa apenas a disposição atual das peças. Ora, só se for para quem fala. Quem estuda a língua precisa conhecer seu passado, o dela. Sua história. E seus disfarces. Palavrinhas que fugiram há tempos do idioma voltam disfarçadas de estrangeirismo. E tem gente querendo proibi-las, achando tratar-se de dominação cultural estrangeira. A língua é cheia de armadilhas, mesmo.
Mas ela não é difícil. Se bem tratada, faz todos os nossos desejos. Se bem.
Aqui, portanto, temos um espaço para discutir a língua e aprender sobre ela. Falaremos de questões gramaticais, usos da norma-padrão e das variedades coloquiais, sociolinguística, leitura, escrita, literatura. Dúvidas são bem-vindas. Correções e acréscimos, também.
Enjoy. Ou seja, vamo' cair dentro!